Min menu

Pages

Depois de muitos anos rodando por aí, fazendo todo tipo de trabalho, voltei para minha cidade e aceitei trabalhar como carregador, querendo apenas ganhar dinheiro para cuidar da minha esposa e do meu filho. Mas minha sogra não parava de me humilhar. Dizia que eu era inútil, que vivia às custas dos outros, que não merecia a filha dela. Eu nunca respondia. Apenas suportava tudo em silêncio, engolindo as palavras e seguindo em frente. Até que, numa certa noite, durante o jantar…

CAPÍTULO 1 – O RETORNO

Voltei para Santos numa manhã nublada de março, quando o cheiro de maresia parece mais forte e o barulho do porto invade até os pensamentos. Depois de quase dez anos rodando o Brasil — obra em Manaus, lavoura em Minas, bico em posto de gasolina no interior do Paraná — eu retornava à cidade onde nasci. Não trazia mala cheia nem promessas grandiosas. Só uma mochila surrada, mãos calejadas e a esperança de reconstruir o que deixei para trás.

Ana me esperava na rodoviária com Lucas no colo. Ele tinha quatro anos, olhos grandes e curiosos. Quando me viu, agarrou meu pescoço como se quisesse recuperar todo o tempo perdido de uma vez só.

— Você demorou, pai — ele disse, sério, como se fosse adulto.

— Eu sei, campeão. Mas agora eu voltei.

Ana sorriu, mas havia algo contido no olhar dela. Amor, sim. Mas também preocupação.

A casa ficava num bairro simples perto da orla, com paredes amarelas já desbotadas pelo sal do mar. Era ali que Ana vivia com a mãe, Dona Marta, desde que o pai dela falecera. Viúva forte, de fala firme, acostumada a decidir tudo sozinha.

Quando entrei, ela me olhou da cabeça aos pés.

— Então resolveu aparecer — disse, seca. — Espero que tenha vindo para trabalhar, não para descansar.

— Vim para trabalhar, sim, senhora.

Ela soltou um “hum” desconfiado e voltou para a cozinha.


Consegui emprego no porto na mesma semana. Não foi fácil. Fiquei horas na fila do sindicato, conversando com homens que, como eu, carregavam no corpo as marcas do esforço. O encarregado me avaliou com olhar prático.

— Aguenta peso?

— O que precisar.

No primeiro dia, o barulho me ensurdeceu. Guindastes, caminhões, contêineres. O sol refletia no metal e parecia dobrar o calor. Carreguei caixas, amarrei cargas, empurrei paletes. No fim do turno, minhas costas ardiam. Mas quando saí pelo portão e vi Lucas correndo em minha direção, senti que valia a pena.

— Meu pai trabalha no navio! — ele contou para um menino da rua, orgulhoso.

Eu ri. Não trabalhava no navio, mas não corrigi.

À noite, a mesa de jantar reunia os quatro. Arroz, feijão, peixe frito. Dona Marta servia tudo com precisão.

— Quanto pagam nesse serviço? — ela perguntou, sem me olhar.

— Dá para sustentar a casa — respondi.

— Sustentar? — ela arqueou a sobrancelha. — Casa que é minha.

O silêncio caiu pesado.

— Mãe... — Ana tentou intervir.

— Eu só estou dizendo a verdade. Homem que sai pelo mundo e volta de mãos vazias precisa provar que mudou.

Eu não respondi. Mastiguei devagar, sentindo o gosto misturado com algo mais amargo que o tempero.

Os dias seguintes foram iguais. Trabalho pesado, volta para casa, críticas veladas. Dona Marta nunca gritava. Mas cada frase vinha como uma lâmina fina.

— Ana poderia ter casado com alguém do banco lá do Gonzaga.

— Homem que presta constrói patrimônio.

— Não sei como você aguenta essa vida, minha filha.

Ana ouvia, inquieta. À noite, quando Lucas já dormia, ela se deitava ao meu lado e suspirava.

— Eu sei que é difícil — dizia ela. — Mas a mamãe tem medo. Ela passou muita coisa sozinha.

— Eu também tenho medo — respondi, olhando o teto. — De não ser suficiente.

O problema não era o trabalho. Era a sensação de que, dentro daquela casa, eu era um visitante tolerado. E o pior: começava a duvidar de mim mesmo.

Uma tarde, enquanto brincava com Lucas no quintal, ouvi Dona Marta comentando com uma vizinha no portão:

— Ele? Está lá no porto, carregando caixa. Não sei até quando aguenta.

Lucas me olhou.

— Pai, o que é aguentar?

— É continuar mesmo quando está difícil.

Ele sorriu, satisfeito. Mas eu senti o peso da pergunta.

Naquela noite, deitado, fiquei pensando: quanto tempo mais eu suportaria aquela desconfiança constante? Eu queria provar que era capaz. Mas como, se a cada passo parecia que eu estava sempre devendo algo?

O barulho distante das ondas me acompanhou até o sono. Eu não sabia, mas em breve aquele silêncio contido iria se romper de vez.

CAPÍTULO 2 – A MESA DE DOMINGO


O domingo começou tranquilo. Ana preparava macarrão com frango. Lucas desenhava navios num caderno. Eu tinha recebido o primeiro pagamento após meses de horas extras. Não era fortuna, mas era fruto do meu esforço.

Coloquei o envelope sobre a mesa.

— Pensei em guardar uma parte para consertar o telhado antes das chuvas — falei.

Dona Marta soltou uma risada curta.

— Telhado? Com salário de carregador?

Respirei fundo.

— Não é muito, mas é honesto.

— Honesto não enche conta de banco — ela rebateu. — Minha filha estudou. Merecia mais.

Ana baixou os olhos.

— Mãe, por favor...

— Estou errada? — Dona Marta insistiu. — Ele ficou anos longe. Prometeu voltar com dinheiro. Voltou com mochila.

Lucas levantou a cabeça.

— Vô... vô-zu... — ele tentou repetir a palavra que ouvira outras vezes. — Vôzu... o que é isso?

O silêncio congelou a sala.

— Inútil, meu filho — Dona Marta respondeu automaticamente, antes de perceber.

— O que é inútil? — Lucas insistiu.

Olhei para meu filho. Ele buscava significado, não julgamento. Senti algo se quebrar dentro de mim.

Coloquei o garfo no prato.

— Chega — disse, calmo.

Dona Marta me encarou, surpresa.

— Chega de quê?

— De falar assim na frente do meu filho.

— Ah, agora tem voz?

— Sempre tive. Só escolhi respeitar.

Ana segurou minha mão debaixo da mesa. Eu sentia o tremor nos dedos dela.

— Eu errei no passado — continuei. — Saí querendo ser mais do que podia. Quebrei a cara. Mas eu trabalho todo dia. Não sou peso para ninguém.

— Mora na minha casa — ela retrucou.

— Por enquanto. E agradeço. Mas não vou aceitar que meu filho cresça ouvindo que o pai dele não vale nada.

A respiração de Dona Marta ficou pesada.

— Eu só quero proteger minha filha.

— Eu também — respondi.

Lucas olhava de um para o outro, confuso.

— Pai é forte — ele disse, tentando resolver a tensão com a simplicidade da infância.

Ana chorava em silêncio.

— Nós vamos alugar um lugar pequeno perto do porto — anunciei. — Não é fuga. É começo.

Dona Marta levantou-se devagar.

— Faça o que quiser. Só não venha depois dizer que eu não avisei.

Ela saiu da sala. O barulho da porta ecoou como um ponto final.

Ana me abraçou.

— Você tem certeza?

— Tenho. Não dá para viver pedindo permissão para existir.

Naquela noite, quase não dormi. Medo e alívio brigavam dentro de mim. Sair dali significava assumir tudo. Não haveria desculpas.

Mas talvez fosse exatamente isso que eu precisava.


CAPÍTULO 3 – MARÉ NOVA


Dois meses depois, estávamos num apartamento pequeno perto do mercado de peixes. O cheiro de mar continuava presente, mas agora misturado ao aroma do pão de queijo que Ana assava de madrugada para vender aos trabalhadores do porto.

— Prova — ela dizia, sorrindo, oferecendo um ainda quente.

Eu saía cedo. No porto, o encarregado começou a confiar mais em mim.

— Você organiza bem o pessoal — comentou um dia. — Continue assim.

Não era promoção formal, mas era reconhecimento.

As contas apertavam. Havia dias em que eu calculava cada centavo. Mas, pela primeira vez, a casa era nossa. Lucas desenhava na parede do quarto e ninguém reclamava.

— Aqui é nosso, né, pai?

— É sim.

Certa tarde de domingo, enquanto eu consertava a tela da janela, bateram à porta.

Abri. Dona Marta estava ali, segurando uma panela.

— Fiz feijoada. Lucas gosta.

Fiquei alguns segundos sem saber o que dizer.

— Entra.

Ela olhou ao redor. O sofá simples, a mesa pequena, o fogão antigo.

— É apertado — comentou.

— Mas é nosso — respondi, sem ironia.

Lucas correu e abraçou a avó.

Durante o almoço, o clima era diferente. Menos tensão, mais cautela.

Depois de um tempo, Dona Marta suspirou.

— Eu fui dura demais.

Ana levantou o olhar.

— Mãe...

— Eu tenho medo — ela continuou. — Criei você sozinha. Sempre achei que homem falha. Então eu ataquei antes de confiar.

Eu ouvi em silêncio.

— Eu também falhei — disse. — Mas estou tentando acertar.

Ela assentiu.

— Vejo que está.

Não houve pedido formal de desculpas. Mas houve algo mais importante: reconhecimento.

Quando ela foi embora, Lucas me abraçou pelas pernas.

— Viu? Você é forte mesmo.

Sorri.

À noite, sentei na varanda pequena. O porto seguia barulhento, as luzes refletindo na água escura. Minhas costas ainda doíam. O dinheiro ainda era contado. Mas dentro de mim havia algo novo.

Eu não precisava mais provar para o mundo inteiro. Bastava seguir firme.

As ondas batiam no cais com paciência antiga. Aprendi que dignidade não está no cargo, mas na postura. Não na opinião alheia, mas na consciência tranquila.

E, pela primeira vez em muitos anos, senti que a maré estava a favor.

‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.

Comentários