CAPÍTULO 1 – SOB O IPÊ AMARELO
Helena Duarte caiu de joelhos diante da lápide simples, como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.
O motorista, João Pereira, ficou paralisado ao lado do carro preto estacionado a poucos metros dali. Ele reconhecia aquela mulher das revistas de economia, dos rankings das pessoas mais ricas do Brasil, das entrevistas sobre exportação de café e cacau. Sempre impecável, firme, estratégica. Mas ali, sob o ipê amarelo do Campo Santo, em Salvador, ela não era uma empresária bilionária.
Ela era apenas uma filha chorando.
— Pai… eu consegui… — murmurou Helena, com a voz embargada.
O vento espalhava pétalas amarelas sobre a lápide de cimento. Nada de mármore importado, nada de flores exuberantes. Apenas a inscrição simples:
Antônio Duarte
1948 – 2005
Pai amado
João sentiu um aperto no peito. Antônio Duarte.
Aquele nome ecoou na memória como um trovão distante.
Seu pai, Carlos Pereira, repetira aquele nome durante toda a infância de João.
“Antônio era meu irmão de vida”, dizia ele, sentado à mesa pequena da cozinha, depois de um dia exaustivo no porto de Salvador. “Se a gente tivesse conseguido abrir nossa torrefação, você não precisaria trabalhar tão cedo, meu filho.”
João nunca conhecera aquele Antônio. Sabia apenas que ele trabalhara com seu pai no armazém de café do porto. Dois homens simples, dois sonhadores com pouco dinheiro e muitas responsabilidades.
E agora, ali, diante dele, a filha daquele homem era uma das mulheres mais poderosas do país.
Helena tocava o túmulo como se quisesse atravessar o concreto com as mãos.
— O senhor devia estar aqui… — sussurrou.
João sentiu um nó na garganta. Ele pensou no próprio pai, morto num acidente de trabalho quando João tinha vinte anos. Lembrou-se do hospital, do cheiro de desinfetante, da última frase que ouviu:
“Se Antônio estivesse aqui… tudo teria sido diferente.”
O motorista aproximou-se alguns passos, sem querer invadir o momento. Helena começou a chorar de forma contida no início, mas logo o choro se transformou em soluços profundos. Não havia câmeras, não havia público. Só verdade.
João apagou o cigarro com a ponta do sapato.
De repente, tudo fazia sentido e, ao mesmo tempo, nada fazia.
Quando Helena finalmente se levantou, seus olhos estavam vermelhos. Ela respirou fundo, ajeitou os óculos escuros e caminhou em direção ao carro.
João abriu a porta, mas sua mão tremia.
— Senhora… — ele hesitou. — A senhora é filha de Antônio Duarte… que trabalhou no porto de Salvador?
Helena congelou.
— Sou. — A voz dela ficou mais firme. — O senhor o conheceu?
João engoliu em seco.
— Meu pai… Carlos Pereira. Eles trabalhavam juntos.
O silêncio que se seguiu foi pesado, quase palpável.
Helena retirou os óculos devagar. Os olhos marejados encontraram os dele.
— Carlos… Pereira? — repetiu, como se testasse o nome na memória. — Seu pai era alto, sempre com uma toalha no ombro?
João assentiu, o coração acelerado.
Helena levou a mão à boca.
— Meu Deus… — sussurrou. — Seu pai foi a pessoa mais generosa que eu já conheci.
Ali, no estacionamento silencioso do cemitério, o passado começou a se abrir como uma ferida que nunca havia sido totalmente fechada.
E João ainda não sabia que aquela tarde mudaria o rumo da própria vida.
CAPÍTULO 2 – DÍVIDAS QUE O TEMPO NÃO APAGA
O carro deslizava pelas ruas de Salvador enquanto o sol começava a descer em direção ao mar. Dentro do veículo, o silêncio era carregado de memórias.
— Seu pai… — começou Helena, olhando pela janela. — Ele salvou o meu futuro.
João sentiu o peito apertar.
— Ele nunca falou nada sobre isso.
Helena respirou fundo.
— Quando eu passei na Universidade Federal da Bahia, nós não tínhamos dinheiro nem para a passagem de ônibus até São Paulo, onde eu precisava fazer estágio. Meu pai estava desesperado. Ele quase desistiu do sonho por mim.
Ela fez uma pausa.
— Foi quando o senhor Carlos apareceu com um envelope. Economias de anos. Disse que era um “investimento numa menina que ia longe”.
João fechou os olhos por um instante. Lembrou-se das dificuldades financeiras daquela época. Lembrou-se das discussões baixas entre os pais à noite.
— Então foi por isso… — murmurou. — Eu achava que a gente estava apertado porque o trabalho no porto estava fraco.
— Seu pai nunca contou? — perguntou Helena.
— Nunca.
Helena sorriu com tristeza.
— Ele pediu segredo. Disse que amizade de verdade não precisa de plateia.
João sentiu uma mistura de orgulho e dor. Durante anos, ele carregara a sensação de que o pai não deixara nada além de contas e cansaço. Agora descobria que deixara algo muito maior.
— Depois do estágio, fui contratada por uma empresa exportadora. Trabalhei como assistente, depois gerente, depois abri meu próprio negócio. Tudo começou com aquela viagem.
Ela virou-se para ele.
— Eu tentei encontrar seu pai depois que meu negócio começou a crescer. Mas soube que ele havia falecido.
João apertou o volante.
— Foi um acidente no armazém.
Helena fechou os olhos, emocionada.
— Eu queria ter agradecido em vida.
O carro passou pelo Pelourinho, colorido e vibrante, com turistas tirando fotos. A vida seguia, indiferente às histórias escondidas nas esquinas.
— Senhora Helena… — disse João, hesitante. — A senhora não deve nada à minha família.
Ela respondeu com firmeza:
— Não é uma dívida financeira. É uma dívida moral. E essas não prescrevem.
João não soube o que dizer.
Quando chegaram ao hotel, Helena segurou o braço dele antes de sair.
— João, eu não acredito em coincidências. Hoje não foi acaso.
Ele apenas assentiu, ainda tentando compreender o peso daquele encontro.
Naquela noite, João quase não dormiu. Pensou no pai, nas palavras nunca ditas, nos sonhos interrompidos. Pela primeira vez, ele não lembrava de Carlos Pereira apenas como o homem cansado que chegava coberto de pó de café.
Ele via um homem generoso. Corajoso. Visionário.
E isso mudava tudo.
CAPÍTULO 3 – DUARTE & PEREIRA
Três semanas depois, João recebeu um convite inesperado para ir a São Paulo.
Ele nunca tinha saído da Bahia.
O prédio da empresa de Helena era moderno, com vista para a Avenida Faria Lima. João sentia-se deslocado em meio a executivos de terno, mas Helena o recebeu com um abraço sincero.
— Fico feliz que tenha vindo.
Sentaram-se numa sala de reunião ampla. Sobre a mesa, havia plantas arquitetônicas e relatórios.
— João, eu estou expandindo a produção no Nordeste. Quero abrir uma torrefação em Salvador, perto do porto.
Ele piscou, surpreso.
— No porto?
— Onde nossos pais trabalharam.
Ela deslizou um documento em direção a ele.
No topo, lia-se:
Projeto Duarte & Pereira
João ficou imóvel.
— Eu não quero doar dinheiro a você — explicou Helena. — Quero oferecer sociedade e a gestão local. Você conhece a cidade, conhece as pessoas. Eu posso investir capital. Você investe sua história.
Os olhos de João se encheram de lágrimas.
— Eu sou só um motorista…
— Não é “só”. É filho de um homem que acreditava em futuro.
O silêncio foi quebrado apenas pelo som distante da cidade lá fora.
— Seu pai e o meu sonhavam com isso, não sonhavam? — perguntou Helena suavemente.
João sorriu pela primeira vez desde o encontro no cemitério.
— Sonhavam.
Meses depois, o galpão reformado no porto de Salvador exalava o aroma forte de café recém-torrado. Trabalhadores locais, muitos filhos e netos de antigos colegas de Carlos e Antônio, estavam empregados ali.
Na inauguração, uma placa foi revelada:
Duarte & Pereira
Desde 2026
João passou a mão sobre o nome do pai gravado em metal.
— O senhor conseguiu, pai… — sussurrou.
Helena aproximou-se.
— Eles conseguiram.
Na semana seguinte, os dois foram juntos ao Campo Santo. Depositaram flores sob o ipê amarelo.
O vento espalhou pétalas sobre as lápides, como uma bênção silenciosa.
João já não via o pai como um homem que partira deixando pouco. Via-o como alguém que plantara uma semente invisível.
Uma semente que levou vinte anos para florescer.
E, sob o céu quente da Bahia, finalmente floresceu.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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