#ContoCurto #Ficção #Autoral O conteúdo do conto acima é apenas para entretenimento e é totalmente fictício.
# CAPÍTULO 1 – O CHEIRO DE PEIXE
O Mercado Municipal de São Luís começava a acordar antes mesmo do sol nascer. O cheiro forte de peixe fresco se misturava ao café coado na hora, às vozes dos feirantes e ao som das caixas sendo arrastadas pelo chão molhado.
— Bora, dona Alzira! Hoje o movimento vai ser grande! — gritou seu Damião, ajeitando os camarões no gelo.
Alzira sorriu cansada. As mãos grossas e marcadas pelo trabalho já estavam geladas antes das seis da manhã. Ela amarrou o avental desbotado na cintura e começou a organizar os peixes.
— Grande nada, homem… esse povo só quer comprar barato.
Mesmo falando aquilo, ela mantinha o olhar atento. Trabalhava ali havia mais de trinta anos. Criou o filho sozinha depois que o marido morreu num acidente de barco quando Mateus ainda era criança.
E foi por aquele menino que ela suportou tudo.
Mateus era o orgulho dela.
Ou pelo menos já tinha sido.
Enquanto Alzira cortava pescadas com habilidade, o celular velho vibrou no bolso do avental. Ela limpou a mão na toalha e atendeu rapidamente.
— Mãe, eu tô entrando numa reunião. Fala rápido.
A voz fria do outro lado fez o sorriso dela desaparecer.
— Só queria saber se você vem domingo. Faz tempo que a gente não almoça junto…
Silêncio.
Depois um suspiro impaciente.
— Mãe, eu já falei que tô ocupado. Minha vida não é mais aquela aí da feira.
A frase bateu nela como vento frio.
— Eu sei, meu filho… só perguntei.
— Preciso desligar.
A ligação terminou.
Alzira ficou olhando para o celular apagado por alguns segundos.
— Ele tá bem? — perguntou dona Célia, da barraca vizinha.
Alzira forçou um sorriso.
— Tá trabalhando muito.
Mas no fundo ela sabia: Mateus não apenas tinha vergonha da pobreza. Tinha vergonha dela.
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No mesmo instante, a quilômetros dali, Mateus atravessava o saguão espelhado da Torre Diamante, sede do Grupo Vasconcelos.
Terno italiano. Relógio caro. Sapato brilhando.
Ninguém imaginaria que aquele executivo elegante tinha crescido no meio de peixe, gelo e lama.
— Doutor Mateus, o presidente quer vê-lo na sala dele — avisou a secretária.
Mateus ajeitou a gravata.
Respirou fundo.
Aquela empresa mudara sua vida. Entrou como estagiário anos antes, graças a uma bolsa na universidade pública. Inteligente, ambicioso e disciplinado, subiu rápido.
Rápido até demais.
Quando entrou na sala, encontrou Augusto Vasconcelos observando a cidade pela janela.
Homem poderoso. Respeitado. Dono de um dos maiores grupos empresariais do Nordeste.
E pai de Helena.
A mulher com quem Mateus iria noivar dali a duas semanas.
— Sente-se, rapaz — disse Augusto.
Mateus obedeceu.
— Helena gosta muito de você.
— Eu também gosto muito dela, doutor Augusto.
O empresário o observou por alguns segundos.
— Você é competente. Tem postura. Cresceu sozinho. Isso tem valor.
Mateus sorriu discretamente.
“Cresceu sozinho.”
Ele gostava daquela expressão.
Era melhor do que explicar suas origens.
— A festa de noivado será importante — continuou Augusto. — Muitos investidores estarão presentes.
— Tudo será perfeito.
Augusto assentiu.
— Espero que sim.
Mateus saiu da sala sentindo o coração acelerar. Estava cada vez mais próximo da vida que sempre sonhou.
Luxo.
Respeito.
Status.
E naquela nova vida não existia espaço para o cheiro de peixe da feira.
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Naquela noite, Helena encontrou Mateus num restaurante sofisticado à beira-mar.
Ela era linda, elegante e tinha um jeito leve de falar.
— Você tá estranho hoje — comentou enquanto mexia no vinho.
— Muito trabalho.
Ela segurou a mão dele.
— Meu pai gosta de você. Isso é raro.
Mateus sorriu.
— Acho que finalmente minha vida entrou nos trilhos.
Helena inclinou a cabeça.
— Você quase nunca fala da sua família.
Ele desviou o olhar.
— Não tem muito o que falar.
— Sua mãe vai ao noivado?
A pergunta veio suave.
Mas acertou como faca.
Mateus demorou a responder.
— Ela… não combina muito com esse ambiente.
Helena franziu a testa.
— Como assim?
— Minha mãe é simples, Helena. Muito simples.
Ela soltou uma risada leve.
— E daí?
Mas Mateus não riu.
Porque, para ele, havia um abismo entre o mundo da mãe e o mundo que queria ocupar.
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Dias depois, Alzira recebeu um envelope dourado entregue por motoboy.
As mãos tremeram ao abrir.
“Temos a honra de convidar…”
Os olhos dela brilharam.
— Meu filho vai casar…
Ela sentou devagar na cadeira de plástico.
Sorriu sozinha.
Depois começou a chorar.
Na feira, contou para todo mundo.
— O Mateus venceu na vida!
Seu Damião bateu palmas.
— Eu falei que esse menino ia longe!
Alzira passou a semana inteira planejando o que vestir.
Comprou tecido parcelado.
Pagou uma costureira do bairro.
Separou dinheiro até para fazer o cabelo.
Ela queria estar bonita.
Queria que o filho tivesse orgulho dela pelo menos uma vez.
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Mas, na véspera da cerimônia, Mateus fez uma ligação.
— Mãe… sobre amanhã…
— Eu já deixei a roupa pronta! — respondeu ela animada. — Você vai ver como ficou bonita.
Mateus fechou os olhos.
Aquilo o irritava mais do que deveria.
— Escuta. Vai ter muita gente importante lá.
— Eu sei, meu filho. Tô até nervosa.
— Talvez seja melhor a senhora não ir.
Silêncio.
Alzira pensou que tinha ouvido errado.
— Como é?
Mateus respirou fundo.
— Mãe… eu não quero comentários. Nem constrangimento.
Ela segurou o telefone com força.
— Você tá com vergonha de mim?
— Não começa drama.
A voz dela saiu baixa.
Ferida.
— Eu vendi peixe a vida inteira pra você estudar…
— E eu agradeço. Mas agora minha vida é outra.
Alzira sentiu algo quebrar dentro dela.
— Entendi.
Mateus desligou sem perceber que a própria mão tremia.
Do outro lado da linha, Alzira ficou imóvel por longos minutos.
Depois dobrou cuidadosamente o vestido novo.
Guardou dentro da gaveta.
E chorou em silêncio até amanhecer.
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O Hotel Imperial estava iluminado como cenário de novela.
Tapete vermelho.
Arranjos importados.
Taças brilhando.
Executivos, políticos e empresários circulavam pelo salão.
Mateus sorria para todos.
Elegante. Seguro. Impecável.
Mas por dentro havia inquietação.
Ele olhava constantemente para a entrada.
Tinha medo de que a mãe aparecesse.
Por isso contratara discretamente dois seguranças extras.
— Não deixem entrar nenhuma senhora da feira procurando por mim — ordenou.
— Pode deixar, doutor.
A música começou.
Helena surgiu usando um vestido branco sofisticado.
Todos aplaudiram.
Mateus respirou aliviado.
Talvez tivesse conseguido deixar o passado do lado de fora.
Então, perto da entrada principal, uma confusão começou.
Uma mulher simples discutia com os seguranças.
— Eu sou mãe dele!
— Senhora, sem convite a senhora não entra.
— Eu trouxe!
Ela procurava nervosa dentro da bolsa.
Os convidados começaram a olhar.
Mateus empalideceu.
Era Alzira.
Usava o vestido simples que mandara fazer.
Os cabelos presos.
As mãos marcadas pelo trabalho.
Por um segundo, os olhos dos dois se encontraram.
E, naquele olhar, havia mais dor do que raiva.
Mateus caminhou rápido até a entrada.
— Eu falei pra senhora não vir!
A voz saiu baixa, mas agressiva.
Alzira recuou como quem leva um tapa.
— Eu só queria te abraçar…
— Isso não é lugar pra escândalo.
Os convidados cochichavam.
Helena observava tudo à distância, confusa.
Alzira tentou esconder as lágrimas.
— Desculpa… eu já vou embora.
Mateus fez sinal para os seguranças.
— Levem ela até a saída lateral.
Naquele instante, o salão inteiro mergulhou num silêncio inesperado.
Porque Augusto Vasconcelos havia se levantado lentamente da mesa principal.
Os olhos dele estavam fixos em Alzira.
E, quando falou, sua voz ecoou pelo salão inteiro.
— Esperem.
Todos pararam.
Augusto caminhou na direção dela.
O rosto sério.
Os olhos úmidos.
Então disse algo que fez cada pessoa naquele hotel prender a respiração.
— Dona Alzira… a senhora não me reconhece?
Mateus ficou imóvel.
Augusto deu mais um passo.
E completou:
— Foi a senhora quem salvou minha vida trinta anos atrás.
# CAPÍTULO 2 – O PASSADO QUE NINGUÉM CONHECIA
O salão inteiro permaneceu em silêncio.
Nem os garçons se moviam.
Mateus sentiu o sangue fugir do rosto enquanto olhava alternadamente para Augusto e para sua mãe.
Alzira piscou várias vezes, confusa.
— O senhor… me conhece?
Augusto soltou um sorriso emocionado.
Pela primeira vez naquela noite, o empresário parecia apenas um homem comum.
— Conheço porque devo minha vida à senhora.
Os convidados começaram a cochichar.
Helena aproximou-se devagar.
— Pai… o que está acontecendo?
Augusto ignorou a pergunta por alguns segundos. Continuou olhando para Alzira, como alguém que reencontra uma memória perdida.
— Trinta anos atrás eu era um jovem arrogante… muito parecido com ele — disse, apontando discretamente para Mateus.
A frase atingiu o noivo como uma pedrada.
Augusto continuou:
— Eu estava viajando pelo litoral do Maranhão para fechar um negócio. Chovia muito naquela noite. Meu carro caiu numa ribanceira perto da estrada velha de Raposa.
Alzira levou a mão à boca.
As lembranças começaram a surgir.
— O homem do acidente…
— Sim. Eu.
O salão seguia imóvel.
Até os músicos haviam parado.
Augusto respirou fundo.
— O carro começou a pegar fogo. Eu estava preso nas ferragens. Ninguém parava por medo da explosão. Mas uma mulher saiu correndo da feira de peixe debaixo daquela chuva…
Os olhos dele se encheram d’água.
— A senhora quebrou o vidro com as próprias mãos.
Alzira parecia perdida no tempo.
— Meu Deus…
— Eu estava desacordado quando a senhora me arrastou para fora. Minutos depois o carro explodiu.
Helena ficou chocada.
— O senhor nunca contou isso pra gente.
Augusto sorriu triste.
— Porque eu nunca consegui encontrar a mulher que me salvou. Só lembrava do rosto dela… e do cheiro de maresia.
Mateus sentia o coração disparar.
Não conseguia respirar direito.
Augusto virou-se para ele.
— Você sabia disso?
Mateus respondeu quase sem voz:
— Não…
E era verdade.
Nunca soubera daquela história.
Porque Alzira jamais contou.
Ela sempre evitava falar sobre si mesma.
Passou a vida inteira falando apenas do filho.
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Augusto pegou delicadamente as mãos machucadas de Alzira diante de todos.
— Essas mãos salvaram minha vida.
Mateus observou os cortes antigos nos dedos da mãe.
As unhas gastas.
As marcas que ele fingira não existir durante anos.
De repente, tudo aquilo parecia impossível de ignorar.
Helena estava emocionada.
— Dona Alzira… por que a senhora nunca procurou meu pai?
Ela deu um sorriso tímido.
— Eu não fiz esperando recompensa, minha filha.
Alguns convidados abaixaram os olhos, constrangidos.
Porque minutos antes observavam aquela mulher simples como se ela não pertencesse ao lugar.
Augusto então fez algo ainda mais inesperado.
Puxou uma cadeira na mesa principal.
— A senhora vai se sentar aqui comigo.
Os fotógrafos registraram tudo.
Mateus sentiu o mundo girar.
Seu maior medo estava acontecendo.
Só que de um jeito que ele nunca imaginou.
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A cerimônia continuou, mas nada parecia igual.
O clima sofisticado dera lugar a uma tensão silenciosa.
Enquanto os convidados tentavam voltar às conversas, Mateus permanecia imóvel perto do palco.
Helena aproximou-se dele.
— Você expulsou sua mãe…
Ele passou a mão no rosto.
— Você não entende.
— Não, Mateus. Acho que eu entendo agora.
A decepção na voz dela foi pior do que um grito.
— Eu cresci vendo meu pai valorizar pessoas simples. Nunca importou dinheiro dentro da nossa casa.
— Fácil falar quando se nasce rica.
Helena ficou surpresa com a agressividade.
— Então é isso? Você odeia de onde veio?
Mateus não respondeu.
Porque a resposta era complicada.
Ele não odiava a pobreza.
Odiava o que ela o fazia sentir quando criança.
Lembrou-se dos colegas rindo do cheiro de peixe impregnado em seu uniforme escolar.
Das mães proibindo os filhos de brincar em sua casa.
Do dia em que ouviu alguém dizer:
“Filho de peixeira nunca vira doutor.”
Aquilo o perseguira a vida inteira.
E, para fugir daquela humilhação, decidiu matar qualquer parte de si que lembrasse o passado.
Inclusive a própria mãe.
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Do outro lado do salão, Alzira parecia desconfortável na mesa principal.
— Eu devia ir embora… — murmurou.
Augusto balançou a cabeça.
— Hoje não.
Ela sorriu sem jeito.
— Seu povo é fino demais pra mim.
— O problema nunca foi a senhora estar aqui.
Augusto lançou um olhar firme para Mateus.
— O problema foi alguém achar que a senhora não merecia estar.
A indireta atravessou o salão inteiro.
Mateus abaixou os olhos.
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Horas depois, a festa terminou num clima estranho.
Os convidados foram embora comentando o acontecimento.
Vídeos começaram a circular nas redes sociais.
“O empresário que homenageou uma peixeira.”
“A verdadeira heroína da noite.”
Mateus observava tudo do estacionamento enquanto fumava nervosamente.
Helena apareceu atrás dele.
— A gente precisa conversar.
Ele já sabia o que vinha.
— Você quer cancelar o noivado?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Eu não sei.
Aquilo doeu mais do que ele imaginava.
— Helena…
— O homem por quem me apaixonei parecia humilde. Trabalhador. Mas hoje eu vi alguém disposto a humilhar a própria mãe pra parecer importante.
Mateus desviou o olhar.
— Você não entende o que é crescer sem nada.
— Talvez não. Mas eu sei reconhecer ingratidão.
Ela entrou no carro e foi embora.
Mateus ficou sozinho.
Pela primeira vez em muitos anos, sentiu vergonha.
Mas não da mãe.
De si mesmo.
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Enquanto isso, Alzira voltava para casa num carro enviado por Augusto.
O motorista abriu a porta com educação.
Algo que ela não estava acostumada a receber.
Ao chegar ao bairro simples onde morava, encontrou vizinhos esperando no portão.
— Alzira! A gente viu tudo pela internet!
— Mulher, tu salvou um milionário!
Ela riu constrangida.
— Faz tanto tempo…
Dona Célia segurou sua mão.
— E teu filho?
O sorriso dela desapareceu um pouco.
— Meu filho tá perdido dentro dele mesmo.
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Na manhã seguinte, Mateus acordou com centenas de mensagens.
Colegas comentando o vídeo.
Sites publicando manchetes.
Mas uma mensagem chamou sua atenção.
Era de Augusto.
“Venha ao meu escritório. Precisamos conversar.”
Mateus chegou tenso.
Encontrou o empresário olhando pela janela, exatamente como da primeira vez.
— Sente-se.
O tom agora era diferente.
Mais duro.
Mateus obedeceu.
Augusto virou-se lentamente.
— Você sabe qual foi o maior erro da minha vida?
Silêncio.
— Achar que dinheiro transforma alguém em pessoa melhor.
Mateus permaneceu quieto.
— Sua mãe tinha mais dignidade naquela feira do que muita gente neste prédio inteiro.
As palavras pesavam como chumbo.
— Eu trabalhei duro pra chegar aqui.
— E ela trabalhou duro pra você chegar aqui.
Mateus fechou os olhos.
Augusto continuou:
— Você passou anos fugindo da pobreza. Mas acabou se tornando pobre de outra forma.
A frase entrou fundo.
Porque, pela primeira vez, Mateus percebeu algo terrível:
Ele havia conquistado tudo.
Menos paz.
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Naquela tarde, decidiu visitar a mãe.
Não ia à casa dela havia meses.
Quando chegou, encontrou Alzira limpando peixe no quintal.
A mesma bacia azul de infância.
O mesmo rádio velho tocando música sertaneja.
Ela levantou os olhos devagar.
Os dois ficaram em silêncio.
Mateus percebeu algo que nunca tinha notado direito:
A mãe parecia mais envelhecida.
Mais cansada.
Mais frágil.
— Veio por pena? — ela perguntou.
Ele respirou fundo.
— Não.
Alzira continuou trabalhando.
— Então veio por quê?
Mateus tentou falar.
Mas as palavras emperravam.
Pela primeira vez na vida, o executivo brilhante não sabia se expressar.
Porque pedir perdão era muito mais difícil do que fechar contratos milionários.
— Eu… errei.
Ela permaneceu quieta.
— A senhora não merecia aquilo.
Os olhos dela marejaram.
— Não foi ontem que me machucou, Mateus.
Ele sentiu o peito apertar.
— Foi aos poucos.
Cada palavra dela parecia revelar feridas antigas.
— Toda vez que você escondia onde morava.
Toda vez que fingia não me conhecer.
Toda vez que dizia que tava ocupado demais pra mim.
Mateus sentiu a voz falhar.
— Eu queria ser aceito.
Alzira finalmente levantou os olhos.
— E pra isso precisava deixar de ser meu filho?
O silêncio entre os dois foi devastador.
E, naquele instante, Mateus percebeu que talvez houvesse coisas que dinheiro nenhum conseguiria consertar.
# CAPÍTULO 3 – O NOME QUE VALE MAIS QUE DINHEIRO
Durante dias, Mateus não conseguiu dormir direito.
As palavras da mãe voltavam sem parar.
“Pra isso precisava deixar de ser meu filho?”
O apartamento luxuoso parecia sufocante.
As paredes elegantes agora pareciam frias.
Vazias.
Pela primeira vez em muitos anos, ele começou a enxergar o próprio reflexo sem admiração.
E não gostou do que viu.
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Na empresa, os corredores estavam estranhos.
Alguns colegas o tratavam normalmente.
Outros cochichavam.
Os vídeos da cerimônia continuavam circulando nas redes sociais.
Mas o que mais incomodava Mateus não era a exposição.
Era perceber que, em nenhum momento, alguém defendeu sua atitude.
Nem mesmo ele conseguia mais defendê-la.
Durante uma reunião, Augusto interrompeu a apresentação no meio.
— Pode parar, Mateus.
O silêncio tomou a sala.
— O senhor encontrou um erro?
Augusto fechou a pasta devagar.
— Encontrei vários. Mas não na planilha.
Os executivos se entreolharam.
Mateus sentiu o rosto esquentar.
— Depois conversamos.
Foi a reunião mais longa da vida dele.
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Naquela noite, Helena apareceu no apartamento sem avisar.
Ela parecia cansada.
Mais séria do que nunca.
Mateus abriu a porta sem coragem de sorrir.
— Você veio terminar tudo?
Ela entrou devagar.
— Eu vim ouvir uma resposta sincera.
Sentaram-se frente a frente.
O silêncio pesou.
Então ela perguntou:
— Você ama sua mãe?
Mateus demorou para responder.
Porque nunca tinha pensado naquilo de verdade.
Achava que amor era automático.
Que existia mesmo sem demonstração.
— Amo.
Helena manteve os olhos fixos nele.
— Então por que parecia odiá-la?
A pergunta desmontou qualquer defesa.
Mateus passou as mãos no rosto.
— Porque eu passei a vida inteira tentando esquecer de onde vim.
Ele começou a falar algo que nunca contara para ninguém.
Sobre as humilhações.
As piadas na escola.
O cheiro de peixe nos cadernos.
Os olhares de desprezo.
Helena ouviu tudo em silêncio.
— Quando consegui subir na vida… eu prometi que ninguém nunca mais pisaria em mim.
Ela respirou fundo.
— E, sem perceber, você começou a pisar em quem te levantou.
A frase entrou como faca.
Mateus baixou a cabeça.
Pela primeira vez em muitos anos, chorou.
Não discretamente.
Não escondido.
Chorou como o menino pobre que passou tempo demais fingindo ser outra pessoa.
Helena aproximou-se devagar.
— Ainda dá tempo de consertar.
---
No domingo seguinte, Mateus acordou cedo.
Vestiu uma roupa simples.
Sem terno.
Sem relógio caro.
Pegou o carro e dirigiu até o Mercado Municipal.
O mesmo lugar que evitava havia anos.
Quando desceu do carro, o cheiro de peixe veio forte.
Antigamente aquilo lhe causava vergonha.
Naquele dia, trouxe memória.
Infância.
Sacrifício.
Vida.
Os feirantes começaram a reconhecê-lo.
— Olha o doutor Mateus!
— Sumido, hein?
Ele sorriu sem jeito.
Então viu a mãe na barraca.
Alzira levantou os olhos e congelou.
Mateus aproximou-se lentamente.
Sem saber exatamente o que dizer.
Os clientes observavam curiosos.
Ele respirou fundo.
E fez algo que nunca fazia em público.
Abraçou a mãe.
Forte.
Demorado.
Alzira arregalou os olhos.
As mãos ainda cheias de escamas ficaram suspensas no ar antes de abraçá-lo de volta.
Mateus chorava.
Sem vergonha.
— Me perdoa, mãe.
A voz saiu quebrada.
O mercado inteiro ficou em silêncio.
Alzira acariciou os cabelos dele como fazia quando era criança.
— Meu filho… olha pra mim.
Ele levantou os olhos cheios d’água.
— Eu nunca precisei que você fosse rico.
Ela sorriu triste.
— Só precisava que não tivesse vergonha de mim.
Mateus segurou as mãos dela.
As mesmas mãos que ele tentara esconder do mundo.
— Eu tenho orgulho da senhora.
Seu Damião limpou discretamente os olhos do outro lado da barraca.
Até alguns clientes se emocionaram.
Porque havia verdades que qualquer pessoa entendia.
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Na semana seguinte, Augusto convocou uma coletiva de imprensa inesperada.
Empresários, jornalistas e funcionários lotaram o auditório do Grupo Vasconcelos.
Mateus chegou nervoso.
Não sabia exatamente o motivo do evento.
Augusto subiu ao palco.
— Durante muito tempo esta empresa valorizou apenas resultados.
Fez uma pausa.
— Mas empresas são feitas de pessoas. E caráter vale mais que currículo.
O auditório permaneceu atento.
Augusto então chamou alguém ao palco.
— Dona Alzira, por favor.
Ela apareceu tímida, usando vestido simples.
O público aplaudiu de pé.
Mateus sentiu os olhos marejarem.
Augusto sorriu.
— Esta mulher me ensinou, há trinta anos, que grandeza não tem relação com dinheiro.
Ele entregou um documento nas mãos dela.
— O Grupo Vasconcelos está inaugurando hoje o Instituto Alzira de Capacitação Profissional, destinado a filhos de trabalhadores humildes que sonham estudar.
O auditório explodiu em aplausos.
Alzira ficou sem reação.
— Eu nem sei falar bonito…
Augusto respondeu sorrindo:
— Quem viveu com dignidade já disse tudo que importa.
Mateus chorava sem esconder.
Porque entendia, finalmente, que a verdadeira riqueza da mãe nunca esteve na conta bancária.
Esteve na coragem.
Na honestidade.
No amor silencioso que sustentou sua vida inteira.
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Meses depois, o mercado municipal ganhou uma pequena reforma patrocinada pelo instituto.
As barracas foram organizadas.
Os feirantes receberam cursos e apoio.
E algo curioso começou a acontecer.
Mateus passou a frequentar o lugar regularmente.
Conversava com os vendedores.
Tomava café em copo plástico.
Carregava caixas quando precisava.
No começo, muitos estranharam.
Depois entenderam.
Ele não estava tentando parecer humilde.
Estava tentando voltar a ser humano.
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Numa tarde quente de dezembro, Alzira observava o movimento da feira quando Mateus apareceu carregando sacolas.
— Trouxe teu remédio.
Ela sorriu.
— E trouxe fruta também?
— Trouxe.
Ela balançou a cabeça satisfeita.
— Agora sim tá parecendo meu filho.
Os dois riram.
Mateus sentou-se ao lado dela.
Olhou o mercado cheio.
As pessoas simples.
O barulho.
O cheiro forte de peixe.
E percebeu algo que passou anos sem compreender:
O problema nunca esteve naquele lugar.
Esteve na vergonha que deixaram plantar dentro dele.
Alzira segurou sua mão.
— Sabe de uma coisa?
— O quê?
— Teu pai dizia que gente boa é igual maré.
— Como assim?
Ela sorriu olhando o movimento da feira.
— Pode até se afastar um tempo… mas sempre encontra o caminho de volta.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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