#ContoCurto #Ficção #Autoral O conteúdo do conto acima é apenas para entretenimento e é totalmente fictício.
CAPÍTULO 1: O PREÇO DO SILÊNCIO
O visor do celular acendeu exatamente às duas horas da manhã, quebrando a escuridão do quarto com uma luz azulada e fria. Clarice não estava dormindo. Há meses ela não sabia o que era o sono dos justos. O casamento com Renato vinha se arrastando como um corpo pesado em uma subida íngreme, cheio de desculpas esfarrapadas, reuniões de negócios que se estendiam até o amanhecer e aquele perfume adocicado e barato que teimava em grudar no colarinho das camisas dele.
Ela esticou o braço, o coração batendo em um ritmo descompassado antes mesmo de tocar na tela. Quando desbloqueou o aparelho, a imagem que surgiu na tela fez seu estômago dar um nó violento. Era uma foto tirada de cima, no espelho do teto de um motel conhecido da zona sul do Rio de Janeiro. Sob os lençóis de cetim vermelho, Renato dormia profundamente, com o semblante relaxado de quem não devia nada ao mundo. Ao lado dele, uma mulher jovem, de cabelos oxigenados e sorriso triunfante, olhava direto para a câmera. Logo abaixo da foto, veio a mensagem de texto, uma provocação direta e cortante:
"Ele diz que me ama todos os dias, Clarice. Enquanto você cuida da casa e finge que está tudo bem, ele se diverte comigo. Aceita que você já perdeu."
Clarice sentiu uma lágrima solitária escorrer pelo rosto, mas não era de tristeza. Era o peso de dez anos de dedicação desmoronando em um segundo. Ela se sentou na cama de casal, olhou para o lado vazio e respirou fundo, tentando oxigenar o cérebro. O impulso de qualquer mulher seria ligar gritando, quebrar a casa, mandar aquela foto para toda a família no grupo de WhatsApp ou ir até o motel armar um barraco daqueles. Mas Clarice não era qualquer mulher. Ela conhecia o terreno onde pisava.
— Você quer jogar, garota? — sussurrou Clarice para as paredes vazias. — Então vamos jogar com as regras certas.
Ela não respondeu à mensagem. Não daria àquela menina o gostinho de vê-la desesperada. Em vez disso, saiu da cama, foi até a cozinha e colocou água para ferver. Precisava de um café forte. Enquanto a água esquentava, ela abriu a agenda de contatos do telefone. Passou os dedos pela tela até encontrar um nome que não discava há pelo menos três anos: Dr. Alfredo de Siqueira.
Alfredo não era apenas um advogado criminalista de renome na capital fluminense; ele era o verdadeiro dono do império financeiro que Renato gerenciava. Renato era o diretor executivo da construtora dos Siqueira, mas cada centavo, cada contrato e cada apartamento que eles possuíam dependiam da assinatura e do aval daquele homem idoso, que por acaso era o tio mais conservador e rígido de Clarice.
Ela olhou para o relógio na parede. Eram duas e quinze da manhã. Ela sabia que o tio sofria de insônia crônica e costumava passar as madrugadas lendo processos em seu escritório. Discou. O telefone não deu dois toques antes de ser atendido.
— Clarice, minha filha? Aconteceu alguma coisa? — A voz do velho advogado era grave e alerta.
— Tio Alfredo, desculpe a hora. Mas aconteceu. Eu preciso que o senhor me escute com muita atenção e faça exatamente o que eu vou te pedir agora — disse ela, mantendo a voz mais firme que conseguia reunir.
— Diga, minha querida. Você sabe que sou um homem prático. O que aquele infeliz fez dessa vez?
Clarice deu um gole no café preto que havia acabado de passar. O gosto amargo combinava com o momento.
— Ele está com a moça que o senhor me ajudou a investigar no mês passado. Aquela que trabalha no setor de auditoria da construtora, a Camila. Ela acabou de me mandar uma foto dos dois na cama. Mas não é só isso, tio. Lembra que o senhor me disse que precisava de uma prova concreta de que o Renato estava desviando fundos da empresa para contas de terceiros para poder tirá-lo da sociedade sem direito a um centavo?
Do outro lado da linha, o silêncio de Alfredo foi absoluto por alguns segundos, seguido por um suspiro pesado.
— Não me diga que...
— Sim. A Camila cometeu o maior erro da vida dela. Na foto que ela tirou para me provocar, no criado-mudo ao lado da cama, dá para ver claramente o notebook corporativo dele aberto na tela do sistema internacional de transferências, com o token de segurança espetado. E do lado, o caderno preto onde ele anota as senhas das contas fantasmas na Suíça. Ela achou que estava me mostrando uma traição amorosa, mas acabou de me entregar o mapa do crime dele.
— Minha nossa... — murmurou o advogado. — Aquela garota assinou a sentença de ruína deles dois. Clarice, guarde essa foto em três dispositivos diferentes agora mesmo. Não responda, não confronte. Amanhã de manhã, o setor de compliance e a auditoria forense vão entrar na sala do Renato antes mesmo dele chegar. E quanto à mocinha... bem, ela vai descobrir que mexer com a família Siqueira custa muito caro.
Clarice desligou o telefone. Ela olhou mais uma vez para a foto. O sentimento de humilhação havia se transformado em uma frieza cirúrgica. Ela salvou o arquivo, enviou para o e-mail do tio e deitou-se novamente. Dormiu como há muito tempo não dormia.
CAPÍTULO 2: O DESABAMENTO
O sol da manhã bateu na janela do quarto, trazendo consigo o calor típico do Rio de Janeiro. Clarice acordou às sete horas, tomou seu banho calmamente e vestiu uma roupa elegante, como se fosse para uma reunião de negócios importante. Preparou uma mesa de café da manhã farta na varanda de seu apartamento na Barra da Tijuca. Sentou-se, cruzou as pernas e esperou.
Às oito e meia, a campainha tocou. Não era um toque normal; era um toque frenético, desesperado, daqueles de quem está batendo com o punho fechado na madeira.
Clarice caminhou calmamente até a porta e a abriu. Diante dela estava a mulher da foto. Mas o glamour da noite anterior havia desaparecido por completo. Camila estava sem maquiagem, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, o cabelo loiro bagunçado e as roupas amassadas. Assim que a porta se abriu, as pernas da jovem pareceram perder as forças. Ela despencou no chão do hall social, caindo de joelhos diante de Clarice.
— Por favor, Clarice! Pelo amor de Deus, me escuta! — gritou Camila, com as mãos tremendo sem parar, tentando segurar a barra da calça de Clarice, que se esquivou com nojo. — Me perdoa! Eu fui uma idiota, eu agi por impulso, eu estava bêbada! Eu imploro, fala com o seu tio! Retira a queixa!
Clarice olhou para baixo, mantendo uma expressão de absoluta indiferença.
— Levante-se do chão do meu corredor, Camila. Você está fazendo cena na frente das câmeras de segurança do condomínio. Entre.
A moça se arrastou para dentro do apartamento, soluçando tão alto que mal conseguia respirar. Clarice fechou a porta e apontou para o sofá da sala. Camila desabou ali, encolhida, tremendo como uma vara verde.
— O que aconteceu, Camila? Pensei que você estivesse feliz com o seu troféu na cama — ironizou Clarice, cruzando os braços.
— Eles me pegaram na recepção da empresa! — explicou a jovem entre os soluços. — Eu cheguei para trabalhar às oito da manhã e dois seguranças armados com o pessoal da auditoria já estavam me esperando na portaria. Eles confiscaram meu crachá, meu computador e disseram que eu estou demitida por justa causa por envolvimento em fraude financeira e vazamento de dados sigilosos! Eles disseram que vão me processar civil e criminalmente! Eu posso ser presa, Clarice! Eu tenho uma mãe doente que depende do meu plano de saúde!
— E o que eu tenho a ver com a sua mãe ou com os seus crimes, garota? — a voz de Clarice era um sussurro gélido.
— Foi por causa daquela foto! O seu tio ligou para a diretoria de madrugada. Eles analisaram a imagem em alta resolução que você mandou. Disseram que o reflexo do notebook no espelho do motel mostrava as telas de desvio de dinheiro que o Renato fazia usando o meu usuário do sistema! Ele usava a minha senha, Clarice! Ele prometeu que ia casar comigo, que ia me dar uma vida de rainha, mas ele estava me usando como laranja! Se a polícia entrar no caso, eu vou para a cadeia pelo que ele roubou!
Nesse momento, a porta de entrada abriu-se abruptamente. Renato entrou na sala, pálido, com o terno desalinhado e o suor escorrendo pela testa. Ele olhou para Camila chorando no sofá e depois para Clarice, que permanecia imóvel no centro da sala.
— Que palhaçada é essa aqui? — esbravejou Renato, tentando manter uma postura de autoridade que claramente já não possuía. — Clarice, o que você fez? O tio Alfredo me ligou dizendo que eu estou afastado da presidência da construtora até o fim das investigações! Minhas contas bancárias corporativas foram bloqueadas! Você enlouqueceu? Vai destruir a nossa vida por causa de ciúme de uma transa qualquer?
Clarice deu um passo à frente, olhando fixamente nos olhos do homem com quem dividira a vida por uma década.
— Nossa vida, Renato? Você quis dizer a sua vida de mentiras, luxo e roubo. Você achou mesmo que eu era cega? Que eu não sabia das suas escapadas e dos seus esquemas com a construtora do meu tio? Eu só estava esperando o momento certo e a prova irrefutável. E, ironicamente, foi a sua querida amante quem me deu tudo de bandeja.
CAPÍTULO 3: A COLHEITA
Renato olhou para Camila com um ódio mortal nos olhos. O charme do executivo bem-sucedido havia evaporado, dando lugar ao desespero de um homem encurralado.
— Sua imbecil! — gritou Renato, avançando na direção de Camila, mas Clarice se colocou na frente com os olhos faiscando.
— Não ouse dar mais um passo nesta casa, Renato! — advertiu Clarice. — Você não apita mais nada aqui. Este apartamento está no meu nome e no nome do meu tio. Você tem exatamente meia hora para colocar as suas roupas em uma mala e sumir da minha frente antes que as viaturas da polícia que o Alfredo chamou cheguem para cumprir o mandado de busca e apreensão dos seus documentos pessoais.
Camila, vendo que a situação estava perdida, rastejou novamente até os pés de Clarice, segurando suas mãos trêmulas.
— Clarice, por favor, eu te imploro! Eu conto tudo para a polícia! Eu viro testemunha do Estado, eu assino o que você quiser provando que o Renato me manipulou e fez tudo sozinho! Só não deixa o seu tio acabar com a minha vida profissional! Eu nunca mais vou conseguir emprego em lugar nenhum! Eu fui usada por ele!
Clarice olhou para a jovem de joelhos. Uma ponta de pena tentou surgir em seu peito, mas a lembrança da mensagem petulante da madrugada apagou qualquer traço de complacência. No entanto, Clarice era uma mulher estratégica. Um testemunho de Camila era exatamente o que faltava para blindar completamente a construtora de sua família e garantir que Renato passasse longos anos pagando pelo que fez.
— Levante-se, Camila — ordenou Clarice, com a voz um pouco mais calma, mas ainda firme. — Você quer uma saída? Pois bem. Meu tio tem um escritório de advocacia criminal completo. Você vai pegar o seu celular agora, vai direto para o escritório do Dr. Alfredo e vai entregar todas as conversas, áudios e mensagens onde o Renato te pedia as senhas do sistema ou onde prometia vantagens em troca da sua cooperação na empresa. Se você abrir o jogo e entregar a cabeça dele em uma bandeja de prata para a auditoria, eu peço ao meu tio para aliviar o processo contra você e retirar as acusações de cumplicidade. Caso contrário, você afunda junto com ele. Estamos entendidas?
Camila limpou as lágrimas rapidamente, balançando a cabeça em sinal de aprovação como se sua vida dependesse daquilo — e, de fato, dependia.
— Sim! Sim, eu faço tudo o que você mandar! Eu tenho tudo gravado no WhatsApp, todas as promessas dele, todas as ordens de transferência! Eu vou agora mesmo falar com o seu tio! — disse a moça, levantando-se e correndo em direção à porta sem olhar para trás, deixando Renato estático no meio da sala.
Renato viu seu mundo desabar em questão de minutos. A amante que ele usava para inflar o ego e como escudo fiscal acabara de se tornar sua maior inimiga e a principal testemunha de acusação. Ele olhou para Clarice, com os olhos injetados, a voz trêmula de raiva e humilhação.
— Você planejou isso... Você me usou esse tempo todo, fingindo que não sabia de nada, só esperando eu errar...
— Eu não planejei nada, Renato — respondeu Clarice, caminhando até a porta e abrindo-a de par em par, apontando para o corredor. — Eu apenas observei enquanto você construía a sua própria armadilha. A sua ganância e a arrogância da sua amante fizeram todo o trabalho pesado por mim. Agora, pegue as suas coisas e saia da minha casa e da minha vida. O seu tempo acabou.
Renato, derrotado e sem argumentos, engoliu em seco. Ele sabia que o poder político e jurídico da família de Clarice no Rio de Janeiro era implacável. Ele caminhou até o quarto de hóspedes, pegou uma mochila qualquer, jogou algumas mudas de roupa dentro e saiu do apartamento de cabeça baixa, sem dizer mais nenhuma palavra.
Clarice fechou a porta com chave e encostou a cabeça na madeira por alguns segundos. O silêncio que se instalou no apartamento era pacífico, quase sagrado. Ela caminhou até a varanda, olhou para o mar ao longe e respirou o ar fresco da manhã. O casamento de dez anos havia terminado da pior forma possível, mas, pela primeira vez em muito tempo, Clarice sentiu que era a verdadeira dona do seu próprio destino. O jogo havia acabado, e ela tinha vencido com dignidade.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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