#ContoCurto #Ficção #Autoral O conteúdo do conto acima é apenas para entretenimento e é totalmente fictício.
CAPÍTULO 1 – O VÉU E A TEMPESTADE
O salão de festas estava deslumbrante. O cheiro de rosas brancas misturava-se ao perfume caro dos convidados, e a luz dos lustres de cristal refletia a ansiedade que pulsava em cada centímetro daquela cerimônia. Eu, Beatriz, vestia um modelo exclusivo, feito sob medida, que parecia pesar toneladas sobre meus ombros. Ao meu lado, Ricardo, o homem com quem eu havia compartilhado os últimos cinco anos, parecia impecável. O terno ajustado, o sorriso charmoso que sempre me conquistara — ou assim eu pensava.
— Você está linda, Bia — ele sussurrou enquanto subíamos os degraus para o local onde jogaríamos o buquê.
A multidão estava eufórica. Minhas amigas de infância, primas e até algumas conhecidas distantes se aglomeravam lá embaixo, prontas para disputar as flores. Eu me virei, o buquê de peônias e orquídeas em mãos, sentindo que, finalmente, a vida estava entrando nos eixos. A segurança era impecável, o cerimonial havia sido planejado nos mínimos detalhes. Ou quase todos.
Foi quando a música, uma versão suave de Can’t Help Falling in Love, foi interrompida pelo som de saltos batendo violentamente contra o piso de mármore. As portas duplas, que deveriam estar fechadas, foram escancaradas com um estrondo. Uma mulher, vestida com um vestido de viscose simples que marcava sua barriga evidente, entrou como um furacão. O silêncio que se instalou foi tão denso que era possível ouvir o zumbido do ar-condicionado.
— Ricardo! — o grito dela ecoou, cortante, por todo o salão.
Ricardo travou. Eu vi o sangue fugir do rosto dele, uma palidez cadavérica que eu jamais tinha visto antes. A mulher caminhou até a base do palco, ignorando os seguranças que, confusos, hesitaram por um segundo. Ela sacou um envelope pardo da bolsa, tirou um papel amarrotado e o arremessou sobre o altar, como se fosse uma sentença de morte.
— O seu filho, Ricardo! Olha! Veja o que você está fazendo com a nossa família enquanto brinca de casar com essa dondoca! — ela apontou para mim, os olhos cheios de lágrimas e ódio.
O ultrassom caiu aos pés dele. Ricardo não se abaixou. Ele parecia ter esquecido como respirar. O burburinho começou, as câmeras dos celulares dos convidados já estavam levantadas, a transmissão ao vivo do casamento correndo o risco de se tornar o maior escândalo do ano em São Paulo. Eu olhei para o papel no chão. A data era recente. O nome do pai, escrito à mão por um médico apressado, era o dele.
— Ricardo, quem é essa mulher? — minha voz saiu estranhamente calma, fria como o aço.
— Bia, eu... eu posso explicar, não é nada disso... — ele gaguejou, dando um passo em minha direção, mas tropeçou no próprio orgulho.
A mulher começou a soluçar, uma cena de novela das oito se desenrolando ali, diante de todos os nossos amigos, dos meus pais, da elite que nos observava com um misto de horror e entretenimento. A plateia era um mar de cochichos.
— Explica então — eu disse, ignorando o caos. — Explica para mim e para todos aqui. Por que tem uma mulher grávida invadindo o meu casamento dizendo que você é o pai do filho dela?
Ricardo olhou para a mulher, depois para mim, buscando desesperadamente uma saída, um ângulo onde pudesse salvar sua reputação. Ele não sabia, mas a armadilha estava pronta há semanas. Ele apenas não sabia que eu era quem segurava a corda.
CAPÍTULO 2 – O JOGO DAS MÁSCARAS
O silêncio que se seguiu à pergunta de Beatriz foi preenchido apenas pelo som do choro da mulher, cujo nome descobrimos mais tarde ser Vanessa. Ricardo, acuado, tentou uma abordagem que sempre funcionara: a vitimização.
— Bia, isso é uma loucura. Eu não sei quem ela é, talvez seja uma fã, alguém que quer extorquir a gente... — ele tentou segurar minhas mãos, mas eu me esquivei com uma agilidade que o surpreendeu.
— Não me toque — respondi, mantendo a voz baixa, o que forçou todos a ficarem em absoluto silêncio para ouvir.
Vanessa subiu os degraus do altar, ignorando os protestos dos cerimonialistas. Ela parou a poucos metros de mim.
— Extorquir? — ela riu, um som seco e doloroso. — Você não é apenas um mentiroso, Ricardo. Você é um covarde. Bia, ele me jurou que ia terminar com você antes do noivado. Ele me disse que você era apenas um contrato, um trampolim para a empresa do seu pai.
Um suspiro coletivo varreu o salão. Eu senti meu coração bater mais forte, não de medo, mas de uma satisfação cruel e contida. O "contrato" mencionado por ela era uma meia-verdade. Ricardo precisava da rede de contatos do meu pai para expandir sua consultoria, mas ele jamais soube que eu estava ciente de cada passo, de cada conta bancária aberta em paraísos fiscais, de cada movimentação suspeita que ele fazia em nome da nossa futura família.
— É verdade, Ricardo? — perguntei, fingindo uma fragilidade que eu não possuía.
— Não! Bia, por favor, vamos sair daqui. Vamos resolver isso em particular... — ele tentava desesperadamente encerrar o show. Ele sabia que, quanto mais tempo passasse, mais provas poderiam surgir.
— Em particular? — intervi, dando um passo à frente. — Ah, não, querido. Acho que todo mundo aqui merece um pouco de entretenimento, não acha? Você se esforçou tanto para criar essa fachada de casal perfeito, o genro ideal, o empresário de sucesso. Por que esconder o resto agora?
Eu me virei para a multidão, que estava estática, gravando cada segundo. Vi o rosto do meu pai, vermelho de raiva, e o da minha mãe, desesperada. Eu me senti no controle total.
— Você disse que queria uma vida de luxo, Ricardo. Você disse que faria qualquer coisa para subir na vida — eu continuei, minha voz ganhando firmeza. — Mas o problema é que você subestimou a mulher com quem você dorme. Você acha que eu não vi os e-mails? Você acha que eu não contratei alguém para investigar cada uma das suas "viagens de negócios"?
Ricardo empalideceu ainda mais. A máscara de noivo apaixonado finalmente caiu, revelando a criatura interesseira e desonesta que ele sempre foi. Vanessa, por outro lado, parecia confusa. Ela esperava ser a destruidora do meu conto de fadas, mas estava percebendo que era apenas uma peça em um tabuleiro muito maior.
— O que você está dizendo, Beatriz? — Ricardo sussurrou, a voz trêmula.
— Eu estou dizendo que, hoje, não é o dia em que eu me caso com você, Ricardo. Hoje é o dia em que o seu castelo de cartas desmorona. E, diferente do que você planejou, eu não vou chorar.
Eu olhei para o relógio. O tempo estava perfeito. Meus advogados já tinham enviado a documentação para a empresa do meu pai. O desfalque que Ricardo tentara aplicar estava prestes a ser descoberto. E agora, o clímax estava prestes a chegar.
CAPÍTULO 3 – O FIM DA FARSA
O ar no salão parecia rarefeito. Vanessa olhava para mim com os olhos arregalados, a mão sobre a barriga, sem entender por que a "vítima" daquela situação estava assumindo o controle com tamanha frieza. Ricardo, por sua vez, estava paralisado. Ele percebeu que não havia escapatória, mas a verdadeira bomba ainda não tinha explodido.
— Vocês dois se merecem — eu disse, olhando do noivo para a mulher grávida. — Mas vocês dois cometeram o mesmo erro: acharam que eu era a única pessoa ignorante nesta sala.
Eu sinalizei para o DJ, que, instruído por mim dias antes, abaixou o som ambiente. Caminhei até o pedestal do microfone que seria usado para os votos. A voz saiu cristalina, preenchendo cada canto do salão.
— Ricardo, você disse à Vanessa que ela era o seu grande amor, enquanto me prometia fidelidade eterna. Mas eu tenho aqui, no meu celular, o registro de todas as contas que você abriu usando o meu nome e o nome da empresa do meu pai — eu disse, e vi Ricardo desmoronar, literalmente, caindo de joelhos no altar. — E quanto a você, Vanessa...
Virei-me para ela.
— Você não é a amante enganada que veio buscar justiça. Você é a sócia dele. Ou melhor, foi a sócia dele até ele decidir que você seria o bode expiatório perfeito para um golpe de desvio de verba, caso as coisas dessem errado. O exame de ultrassom que você trouxe? É uma falsificação grosseira, datada de uma semana atrás, quando Ricardo já sabia que eu estava prestes a auditar os livros da empresa.
O salão explodiu em murmúrios. Vanessa recuou, horrorizada, olhando para Ricardo. O brilho de ódio nos olhos dela foi substituído pelo pânico.
— Ele... ele me prometeu... — Vanessa tentou falar, mas a voz morreu na garganta.
— Ele prometeu mundos e fundos, eu sei — eu continuei, descendo os degraus do altar como se estivesse desfilando em uma passarela. — Mas a verdade, Ricardo, é que a polícia está lá fora. Não por causa de uma amante grávida, mas por causa de lavagem de dinheiro e fraude corporativa.
No exato momento em que terminei a frase, vi as portas do salão se abrirem novamente. Desta vez, não era uma noiva ou uma amante. Eram homens vestidos formalmente, mas com distintivos visíveis. O pânico de Ricardo foi total; ele começou a balbuciar justificativas sem sentido para os convidados, mas ninguém o ouvia. Ele era o homem mais odiado do Brasil naquele exato instante.
Eu parei no centro do salão, sozinha. O buquê de flores, que deveria ter sido lançado para as minhas amigas, eu simplesmente o deixei cair no chão. O vestido de noiva era apenas um traje, a festa era apenas uma formalidade que eu mesma paguei para garantir que todos vissem o fim daquela farsa.
— O casamento está cancelado — anunciei, com um sorriso leve, quase compassivo. — E, Ricardo, espero que goste da vista da sua nova residência. Oito por oito é um espaço um pouco apertado, mas imagino que combine com o seu caráter.
Enquanto os agentes conduziam Ricardo para fora, e Vanessa era levada para prestar esclarecimentos, eu caminhei em direção à saída, ignorando os convidados que me chamavam ou me fotografavam. Eu não estava triste. Pela primeira vez em anos, eu estava livre. A cultura brasileira, com toda a sua dramaticidade e o seu gosto por espetáculos, não teria nada mais interessante para discutir na segunda-feira. E eu, Bia, a noiva abandonada que virou o jogo, seria a única a escrever o final dessa história. Saí do hotel, entrei no meu carro e, enquanto a cidade de São Paulo brilhava lá fora, senti o peso do mundo finalmente sair dos meus ombros. A vida estava começando.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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