#ContoCurto #Ficção #Autoral O conteúdo do conto acima é apenas para entretenimento e é totalmente fictício.
CAPÍTULO 1: O PREÇO DAS ESCOLHAS
A brisa quente que soprava do mar de Santos não era suficiente para acalmar os pensamentos de Gustavo. Sentado na varanda do apartamento de alto padrão que agora dividia com Bianca, ele girava um copo de uísque com gelo, observando o reflexo das luzes da cidade. Fazia exatamente seis meses que ele havia tomado a decisão que mudara sua vida radicalmente. Ele arrumara as malas, deixara a chave sobre a mesa de jantar e abandonara Helena, sua esposa há cinco anos, grávida de quatro meses.
Na época, a paixão avassaladora por Bianca, uma arquiteta jovem e ambiciosa que conhecera em um congresso em São Paulo, pareceu uma justificativa justa. "A vida é curta demais para viver uma farsa", ele dissera a si mesmo. Helena era doce, caseira, professora de ensino fundamental, mas Gustavo sentia que o casamento havia caído na rotina. A gravidez, em vez de uni-los, trouxe a ele um peso de responsabilidade que ele não quis carregar.
— Amor, você ainda está acordado? — a voz de Bianca ecoou da sala, trazendo-o de volta à realidade. Ela apareceu na varanda, vestindo um robe de seda, segurando seu tablet. — Estava vendo os orçamentos para a reforma da nossa cozinha. O mármore importado vai ficar um luxo.
Gustavo forçou um sorriso, dando um gole na bebida.
— Ótimo, querida. Você sabe que confio no seu gosto.
— Você parece distante esses dias, Gustavo. Ainda pensando no processo de divórcio? — Bianca cruzou os braços, fitando-o com seus olhos expressivos e analíticos.
— Um pouco. Os advogados estão enrolando mais do que eu esperava. Helena simplesmente sumiu do mapa depois que a liminar de separação de corpos foi emitida. O advogado dela faz mistério, não diz onde ela está morando. Só sei que ela saiu da nossa antiga casa.
— Ela deve estar na fazenda dos pais dela, no interior de Minas — Bianca deu de ombros, sem muito interesse emocional. — O importante é que legalmente você está livre para construir nossa vida. Só precisamos assinar a partilha de bens. Não mude de foco agora.
Bianca voltou para o interior do apartamento, mas as palavras dela ecoaram frias na mente de Gustavo. Helena tinha raízes profundas na cultura mineira; a hospitalidade, o afeto e a simplicidade eram suas marcas. Ele se lembrava do brilho nos olhos dela quando o teste de gravidez deu positivo. "Nosso milagre, Gu", ela dissera, chorando de alegria após dois anos de tentativas. E ele a havia deixado no momento em que ela mais precisava.
Nos meses seguintes, Gustavo tentou sufocar a culpa mergulhando no trabalho em sua empresa de logística e nos luxos que a nova vida com Bianca proporcionava. Jantares em restaurantes caros, viagens de fim de semana para pousadas na Serra da Mantiqueira, postagens constantes nas redes sociais mostrando uma felicidade idílica. Mas, no fundo, o silêncio de Helena o perturbava. Ela não fizera escândalo, não ligara chorando, não implorara para ele voltar. Apenas aceitara os papéis iniciais por meio do advogado e desaparecera.
Até aquela terça-feira de outono.
O celular de Gustavo vibrou sobre a mesa de centro. Era uma mensagem de um número desconhecido, mas o DDD era de São Paulo. Ele desbloqueou a tela e sentiu o estômago revirar ao ler o texto curto:
"Gustavo, estou de volta à cidade. Meu advogado já entrou em contato com o seu. Amanhã, às quatorze horas, estarei no seu escritório para assinarmos a partilha definitiva e conversarmos sobre o bebê. Espero que esteja preparado. Helena."
Ele releu a mensagem três vezes. O coração acelerou. Ela estava de volta. O bebê já devia ter nascido, calculou rapidamente; as contas batiam com o final do período de gestação. Uma mistura de ansiedade, orgulho ferido e uma estranha expectativa tomou conta dele. Ele seria pai, afinal.
Naquela noite, Gustavo quase não dormiu. Bianca percebeu a agitação, mas ele desconversou, dizendo que era apenas estresse com um grande cliente internacional. Na manhã seguinte, o terno cinza-chumbo parecia sufocá-lo enquanto ele caminhava em direção à sua sala na avenida paulista. O relógio parecia correr mais devagar.
Às treze e cinquenta e cinco, sua secretária, a jovem Mariana, interfonou com a voz visivelmente alterada por uma timidez respeitosa:
— Sr. Gustavo, a Sra. Helena e o Dr. Maurício acabaram de chegar. Devo pedir para entrarem?
Gustavo respirou fundo, ajustou a gravata e tentou adotar a postura de homem de negócios inabalável que fingia ser.
— Sim, Mariana. Peça para entrar, por favor. E traga água e café.
A porta de madeira maciça se abriu devagar. O que Gustavo esperava ver era uma mulher abatida, com o cansaço típico de uma mãe solo, talvez carregando uma bolsa de fraldas barata. Mas a mulher que passou pela porta o deixou sem ar.
Helena vestia um corte de alfaiataria elegante, os cabelos castanhos estavam mais curtos e modernos, e ela exalava uma aura de segurança e serenidade que ele nunca tinha visto nela antes. Seus olhos não guardavam mágoa, apenas uma frieza cortante. Atrás dela, um advogado de meia-idade carregava uma pasta de couro legítimo. E, para a surpresa total de Gustavo, Helena estava sozinha. Não havia bebê, não havia carrinho, não havia menção visual a um filho.
— Olá, Gustavo — disse ela, com uma voz firme e melodiosa que o fez estremecer. — Há quanto tempo.
CAPÍTULO 2: O JOGO DAS APARÊNCIAS
Gustavo demorou alguns segundos para conseguir articular uma resposta. O contraste entre a Helena que ele abandonara — chorosa e vulnerável — e a mulher sofisticada que estava diante dele era gritante.
— Helena... Você está diferente. Por favor, sentem-se — gaguejou ele, indicando as cadeiras de couro em frente à sua mesa.
O advogado, Dr. Maurício, cumprimentou Gustavo com um aceno formal e sentou-se, abrindo a pasta. Helena acomodou-se com elegância, cruzando as pernas e encarando o ex-marido sem desviar o olhar por um segundo sequer.
— O tempo e as circunstâncias nos mudam, Gustavo — respondeu ela, com um sorriso enigmático que não chegava aos olhos. — Mas não estamos aqui para falar de estética. Vamos direto ao ponto. Os papéis do divórcio e da dissolução da nossa sociedade conjugal estão prontos.
— Sim, claro — Gustavo pigarreou, tentando recuperar o controle da situação. — Meu advogado revisou os termos. Eu concordo em deixar o apartamento antigo para você e pagar a pensão estipulada... inclusive a do nosso filho. Aliás, Helena, onde está o bebê? Você veio de Minas sozinha? Quem está cuidando dele?
Helena olhou de relance para o Dr. Maurício, que permaneceu em silêncio, apenas observando a cena. Ela soltou um suspiro leve, quase teatral.
— O bebê está muito bem cuidado, Gustavo. Mas antes de falarmos sobre o futuro dele, precisamos encerrar o passado. Assine os documentos da partilha. Eu faço questão de abrir mão de qualquer pensão alimentícia para mim. Só quero o que é meu por direito de herança e de meação.
Gustavo franziu o cenho. O comportamento dela estava calmo demais. Ele esperava cobranças, choro, talvez alguma acusação sobre Bianca. O silêncio digno de Helena o incomodava mais do que qualquer grito. Ele pegou a caneta Montblanc e assinou as três vias do documento, empurrando-as de volta para o Dr. Maurício.
— Pronto. A parte burocrática entre nós dois está resolvida. Agora, por favor, Helena, me fale sobre a criança. Eu tenho direitos como pai. Eu sei que errei com você, que a forma como saí de casa não foi a correta, mas eu quero assumir minha responsabilidade financeira e afetiva com o meu filho.
Helena soltou uma risada curta, um som que gelou a espinha de Gustavo. Não era uma risada de deboche comum, era o riso de quem detém o controle absoluto de um segredo.
— Responsabilidade afetiva, Gustavo? Você se lembra de quando me deixou? Eu estava no início do segundo trimestre. Uma fase delicada. Você nem sequer olhou para trás. Estava ocupado demais postando fotos de jantares caros no Instagram com a sua nova namorada.
— Eu sei, eu errei! — Gustavo levantou-se da cadeira, alterado, caminhando até a janela que dava para o trânsito barulhento da avenida. — Mas isso não anula o fato de que o sangue daquele menino ou menina é meu. Eu quero ver a certidão de nascimento. Qual é o nome dele?
Helena levantou-se também, com uma postura impecável. Ela caminhou até o centro da sala, ficando a poucos passos de Gustavo. O perfume dela era o mesmo que ela usava anos atrás, o que trouxe a ele uma enxurrada de memórias indesejadas de uma época em que a vida era simples e honesta.
— Você quer falar de sangue, de genética e de direitos, Gustavo? Tudo bem. Vamos falar sobre isso. Mas não aqui. Eu sei que a Bianca trabalha perto daqui e que vocês costumam almoçar juntos no restaurante do hotel aqui ao lado. Quero que ela participe dessa conversa.
— A Bianca? O que ela tem a ver com o meu filho? — Gustavo reagiu, defensivo. — Isso é entre eu e você, Helena! Não misture as coisas.
— Ah, mas ela tem tudo a ver com isso — Helena sorriu, um sorriso que transmitia uma confiança assustadora. — Confie em mim, Gustavo. Ligue para ela. Peça para ela nos encontrar no reservado do restaurante às quinze horas. Se você quer a verdade sobre o bebê, esse é o meu preço. Uma conversa de cinco minutos com os dois presentes. Caso contrário, você só verá meu filho através de oficiais de justiça, e garanto que o escândalo não fará bem para os seus negócios.
Gustavo olhou para o Dr. Maurício, buscando algum sinal de racionalidade, mas o advogado apenas assentiu com a cabeça, confirmando a firmeza da cliente. Sem saída, sentindo uma pressão crescente no peito, Gustavo pegou o celular e discou o número de Bianca.
— Bianca? Preciso que você venha ao restaurante do hotel ao lado do meu escritório agora. É urgente. A Helena está aqui... Sim, ela quer falar com nós dois. Não pergunte, apenas venha.
Ao desligar, Gustavo encarou Helena. Ela mantinha uma expressão de absoluta paz, a paz de quem estava prestes a executar um plano meticulosamente traçado durante meses de isolamento e dor.
CAPÍTULO 3: A VERDADE QUE DESTRÓI
O reservado do restaurante era um ambiente sofisticado, com paredes de madeira escura e isolamento acústico que garantia total privacidade aos clientes. A mesa redonda estava posta, mas ninguém tocara na água ou nos cafés que o garçom havia servido.
Bianca chegou dez minutos depois, ofegante, os saltos altos estalando no chão de mármore. Ela entrou no reservado com o queixo erguido, tentando demonstrar uma superioridade que vacilou no momento em que seus olhos cruzaram com os de Helena. A aparente fragilidade da ex-esposa, que Bianca tanto usara para inflar o ego de Gustavo, simplesmente não existia mais.
— Pronto, Gustavo, já estou aqui — disse Bianca, sentando-se ao lado dele e segurando a mão do parceiro, em um gesto claro de demarcação de território. — Olá, Helena. Espero que possamos ser civilizados e resolver essa transição de forma madura. O que você quer afinal? Dinheiro? Mais imóveis?
Helena olhou para as mãos unidas dos dois e soltou um leve suspiro de desdém, mantendo a postura firme. O Dr. Maurício permaneceu em pé, próximo à porta, como uma sentinela.
— Eu não quero nada que pertença a vocês — começou Helena, com a voz pausada e cortante. — A partilha já foi assinada. O que vim entregar a você, Gustavo, é algo que você me pediu na sua sala: a verdade sobre o bebê.
Gustavo inclinou-se para a frente, o suor frio brotando em sua testa.
— Diga de uma vez, Helena. Onde está o meu filho? Por que ele não está com você?
Helena abriu sua bolsa executiva e retirou um envelope pardo lacrado. Ela o colocou no centro da mesa, mas não o empurrou na direção de Gustavo. Manteve a mão sobre ele.
— Quando você me abandonou, Gustavo, eu achei que meu mundo tinha acabado. Fui para a fazenda dos meus pais em Minas, passei semanas chorando, tentando entender como o homem com quem construí uma vida pôde ser tão cruel. Mas o corpo humano é sábio, e o sofrimento severo tem consequências. Três semanas depois que você saiu daquela casa... eu sofri um aborto espontâneo. Eu perdi o bebê que tanto sonhamos.
Gustavo empalideceu instantaneamente. O copo de água que segurava tremeu.
— Você... você perdeu o bebê? Meu Deus, Helena... Eu não sabia...
— Não, você não sabia porque não se importava — cortou ela, a voz subindo um tom, revelando pela primeira vez a dor guardada. — Mas a história não termina aí. Enquanto eu chorava a perda do meu filho em Minas, meu advogado começou a levantar os dados financeiros e os históricos da nossa empresa para a partilha. E foi aí que descobrimos algo muito interessante sobre a sua atual companheira.
Bianca mudou de postura na cadeira, a expressão de deboche sumindo de seu rosto, substituída por uma rigidez repentina.
— O que você está sugerindo, Helena? Não tente me caluniar.
— Eu não calunio, Bianca. Eu trabalho com fatos e provas — Helena retirou o documento de dentro do envelope e o estendeu na mesa, revelando uma série de relatórios de auditoria e transferências bancárias. — Gustavo, você se lembra de quando a sua empresa quase faliu há um ano, antes de você conhecer a Bianca? Você achava que tinha sido um erro de sistema e uma fraude de um antigo fornecedor.
Gustavo olhou para os papéis, os olhos correndo pelas linhas de dados financeiros.
— Sim... nós quase quebramos. Mas a Bianca apareceu com investidores que salvaram a logística da empresa.
— Os "investidores" eram empresas de fachada que pertencem ao pai da Bianca e a ela mesma — revelou Helena, fixando os olhos em uma Bianca agora lívida. — A fraude que quase faliu a sua empresa foi orquestrada pela própria Bianca, usando um funcionário do seu setor de TI que ela subornou. Ela criou a crise para se aproximar de você como a salvadora da pátria, comprar suas ações a preço de banana através dessas holdings e, eventualmente, assumir o controle total do seu patrimônio. Ela nunca te amou, Gustavo. Você foi um alvo de mercado.
Gustavo sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Seus olhos alternavam entre os documentos irrefutáveis e o rosto de Bianca, que agora tentava balbuciar uma defesa, mas cuja expressão de culpa era evidente.
— Isso é mentira! Gustavo, não acredite nela! Isso são montagens! — Bianca alterou a voz, segurando o braço dele com força.
— Não é mentira, Bianca. Os originais desses contratos e as confissões assinadas pelo programador que você pagou já estão em posse do Ministério Público — disse o Dr. Maurício, intervindo pela primeira vez com sua voz grave de advogado criminalista. — A denúncia por estelionato e fraude financeira foi protocolada hoje de manhã.
Gustavo soltou-se do aperto de Bianca como se tivesse sido queimado. O homem que se achava o mestre do próprio destino, que abandonara a esposa grávida por puro egoísmo e vaidade, percebeu que fora apenas um peão em um jogo frio de interesse financeiro. Ele perdera o filho que tanto queria, destruíra seu casamento com a única mulher que o amara de verdade e, agora, estava prestes a ver sua empresa e sua reputação serem arrastadas para a lama da justiça criminal por causa da amante.
Helena levantou-se, recolhendo sua bolsa. Ela olhou para Gustavo com uma mistura de pena e desapego profundo. A vingança dela não fora física, fora a imposição da realidade nua e crua.
— Minha parte está feita, Gustavo. O divórcio está assinado, eu estou livre de você. O que restar da sua empresa e da sua vida agora é problema seu e dos seus advogados criminais. Passar bem.
Helena caminhou em direção à saída do reservado sem olhar para trás. Seus passos eram firmes, ecoando no restaurante vazio. Gustavo permaneceu estático na cadeira, olhando para o vazio, enquanto as lágrimas de desespero começavam a descer por seu rosto, ouvindo apenas o som dos soluços nervosos de Bianca ao seu lado, sabendo que sua queda estava apenas começando.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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