#ContoCurto #Ficção #Autoral O conteúdo do conto acima é apenas para entretenimento e é totalmente fictício.
CAPÍTULO 1
A sala de jantar da mansão dos Albuquerque, no Morumbi, parecia ter sido projetada para sufocar. O ar-condicionado central zumbia baixinho, mas o calor humano, carregado de expectativas silenciosas e rancores antigos, vencia a tecnologia. Sobre a mesa de mogno maciço, os papéis do inventário de Humberto espalhavam-se como uma sentença. Três meses haviam se passado desde o enfarte que levara o empresário de cinquenta e oito anos, dono de uma construtora de médio porte e de um nome que carregava certo peso na alta sociedade paulistana.
Clara estava sentada na ponta da mesa. Aos quarenta e cinco anos, vestia um luto impecável, porém sóbrio, que parecia blindar sua alma ferida. Ao lado dela, o advogado da família, doutor Valmir, ajustava os óculos pela décima vez, claramente constrangido com a atmosfera. Em volta, os parentes mais próximos murmuravam. Tia Carmem, sempre com sua mania de rezar terços em momentos inadequados, movia as contas de madeira entre os dedos trêmulos.
— Vamos dar início à leitura preliminar dos termos deixados por Humberto — disse doutor Valmir, pigarreando para cortar o burburinho. — Como é de conhecimento de todos, a maior parte do patrimônio está vinculada à empresa e aos imóveis adquiridos durante o matrimônio com Dona Clara.
Clara mal ouvia. Seus olhos fitavam um arranjo de orquídeas brancas no centro da mesa. Pensava em vinte anos de casamento. Vinte anos em que ela abrira mão de sua própria carreira de arquiteta para gerenciar a casa, receber investidores, sustentar os humores de Humberto nos momentos de crise econômica e engolir as traições que, no fundo, ela sabia que existiam, mas fingia ignorar pela conveniência de uma vida confortável e pelo verniz da família tradicional. Humberto nunca fora um homem fácil; era bruto, exigente, viciado no trabalho, mas era o seu mundo. Agora, o mundo dela resumia-se àquela pilha de papéis que prometia mantê-la segura, ou pelo menos digna.
— Espere um momento, doutor Valmir. A leitura não pode prosseguir sem a presença de todos os interessados legítimos.
A voz cortante ecoou pelo corredor de entrada, fazendo com que todos na mesa virassem a cabeça em direção à porta dupla.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, cortado apenas pelo som nítido de saltos agudos batendo no piso de mármore importado.
Bruna apareceu no batente. Tinha vinte e quatro anos, uma beleza vibrante, típica de quem parecia ter saído diretamente de uma novela das nove. Vestia um vestido justo de grife, em tons pastéis, que evidenciava claramente uma barriga saliente de cerca de sete meses. Seus cabelos compridos e escuros caíam sobre os ombros de forma estudada, e no rosto havia uma expressão que oscilava entre a empáfia e o desespero controlado.
Tia Carmem soltou um muxoxo escandaloso, cruzando os braços com força.
— Ora, vejam só! A marmita de luxo do falecido teve a ousadia de aparecer na casa da família! — disparou a tia, sem o menor pudor, levantando-se levemente da cadeira.
— Respeito, Dona Carmem! A senhora me deve respeito! — retrucou Bruna, erguendo o queixo com uma petulância ensaiada. Ela não entrou sozinha; trazia consigo um rapaz alto, de terno barato e expressão acuada, que segurava uma pasta preta. Era seu advogado particular, recém-formado e visivelmente intimidado pelo ambiente.
Clara não se levantou. Sentiu um formigamento gelado subir pela espinha, mas manteve a postura. Seus olhos encontraram os de Bruna. Havia um abismo geracional e moral ali, mas também um espelhamento bizarro: ambas haviam sido prisioneiras da mesma ambição masculina, embora em pontas opostas da linha do tempo.
— O que você está fazendo aqui, garota? — perguntou Clara, com uma voz surpreendentemente calma, que carregava o peso de quem já não tinha mais medo de perder nada. — Este é um momento reservado à família.
— Família? Dona Clara, a verdadeira família de Humberto está aqui dentro desta barriga — disparou Bruna, caminhando com firmeza até a mesa e apoiando as duas mãos sobre a madeira escura, inclinando-se na direção da viúva. — Humberto me amava de verdade nos últimos dois anos. Ele ia se separar da senhora no mês em que sofreu o infarte. Ele me prometeu tudo. E a lei está do meu lado, goste a senhora ou não.
Um murmúrio de indignação tomou conta da sala. Primos e cunhados começaram a falar ao mesmo tempo. Doutor Valmir tentava restabelecer a ordem, batendo levemente com a caneta na mesa.
— Menina, me poupe das suas fantasias! — exclamou o advogado da família, visivelmente irritado. — O senhor Humberto nunca oficializou divórcio algum. Dona Clara é a única herdeira legal e legítima de acordo com o regime de comunhão parcial de bens.
Bruna sorriu de canto, um sorriso frio, venenoso, e olhou para seu próprio advogado, que abriu a pasta e retirou de lá um documento com timbres oficiais e firmas reconhecidas em cartório.
— O doutor Valmir é um excelente profissional, mas talvez não esteja aparado das últimas vontades do seu cliente — disse Bruna, com uma ironia refinada. Ela empurrou um papel grosso por cima da mesa, na direção de Clara. — Este documento foi redigido por Humberto duas semanas antes de morrer. É um reconhecimento de paternidade em cartório e um termo aditivo de testamento, onde ele destina setenta por cento de todo o patrimônio líquido, incluindo as ações da construtora, para o meu filho.
Clara olhou para o papel, mas não o tocou. Sentiu o estômago revirar. O mundo parecia girar lentamente. Setenta por cento. Isso significaria sua ruína financeira, a perda da casa, a humilhação pública completa perante a sociedade paulistana que ela tanto tentara impressionar.
— Isso é falso! É uma armação dessa golpista! — gritou Roberto, irmão mais velho de Humberto, um homem corpulento que até então mantinha-se calado. Ele deu a volta na mesa, ameaçando avançar sobre Bruna, mas foi contido pelos primos.
— Falso? Olhe a assinatura, seu Roberto! Está registrada no vigésimo cartório de notas! Humberto assinou com plena lucidez! — Bruna rebateu, alterando o tom de voz, perdendo um pouco da pose fria e revelando o desespero latente por trás da máscara de segurança.
O advogado de Bruna pigarreou e, com uma voz mansa, virou-se para Clara:
— Dona Clara, para evitarmos um processo de reconhecimento póstumo longo, vexatório e desgastante para a imagem da memória do seu falecido marido, minha cliente está disposta a fazer um acordo amigável. Se a senhora assinar este termo de renúncia imediata aos direitos sucessórios sobre a holding principal, Bruna permitirá que a senhora continue morando nesta mansão por mais seis meses e lhe concederá uma pensão alimentícia temporária de três salários mínimos. É uma proposta generosa, considerando que a senhora pode sair daqui com absolutamente nada.
Um silêncio sepulcral despencou sobre a sala. Três salários mínimos para quem administrava milhões. Seis meses para desocupar a própria vida. Clara olhou em volta e viu nos olhos dos parentes de Humberto não solidariedade, mas o pavor egoísta de que o bolo fosse totalmente devorado pela intrusa, fazendo com que sobrasse menos migalha para eles também.
Tia Carmem choramingava alto agora. Roberto rangia os dentes, vermelho de raiva, olhando para Clara como se esperasse que ela salvasse o sobrenome da família daquela humilhação suprema.
Clara respirou fundo. Sentiu o peso de cada ano dedicado àquele homem egoísta. Sentiu a traição latejando em suas têmporas. Olhou para a barriga de Bruna e percebeu, com uma lucidez dolorosa, que a juventude e a astúcia daquela garota haviam derrotado anos de dedicação silenciosa.
— Três salários mínimos? — Clara murmurou, um sorriso triste e irônico brotando em seus lábios pálidos. Ela levantou o olhar para Bruna, cujos olhos brilhavam de triunfo antecipado. — Você acha mesmo que ganhou, não é, menina? Acha que o dinheiro de Humberto vai comprar a sua paz?
— Não se trata de paz, Dona Clara, trata-se de matemática e de futuro para o meu filho — retrucou Bruna, esticando a caneta de ouro sobre a mesa e colocando-a bem diante das mãos da viúva. — Assine logo. Não faça feio. Todo mundo aqui sabe que o seu casamento já estava morto há anos. Humberto só não teve coragem de te largar antes por pena.
Aquelas palavras funcionaram como um chicote. Clara sentiu a mão tremer levemente ao aproximar-se da caneta. O silêncio na sala era tão denso que se podia ouvir o tique-taque distante do relógio de pêndulo no hall. A pressão psicológica era esmagadora. Todos os olhares convergiam para a ponta da caneta que tocava o papel.
— Vamos, Clara. Assine logo essa porcaria para essa garota ir embora e a gente resolver isso entre nós — murmurou Roberto, perdendo a paciência.
Clara respirou fundo, fechou os olhos por um segundo, aceitando o seu destino aparente, e encostou a ponta da caneta no papel timbrado, pronta para desferir a assinatura que selaria sua própria exclusão.
CAPÍTULO 2
O som da porta da biblioteca da mansão abrindo com um estalo seco ecoou pela sala de jantar, paralisando o movimento da mão de Clara. A ponta da caneta já havia manchado levemente a linha tracejada do documento, mas o arranhão da tinta estacou.
— Esperem. Ninguém vai assinar absolutamente nada.
A voz grave, rouca e profundamente cansada fez com que todos os rostos virassem instantaneamente para a entrada.
Caio, o irmão mais novo de Humberto, surgiu na penumbra do corredor que levava aos fundos da casa. Caio era o ovelha negra da família, o oposto exato do falecido irmão empresário. Enquanto Humberto vestia-se com alfaiataria italiana e circulava em carros importados, Caio levava a vida de forma boêmia, trabalhando como produtor de áudio independente e técnico de som em estúdios modestos na zona oeste de São Paulo. Ele usava uma camisa jeans desbotada, os cabelos cacheados estavam levemente desalinhados e olheiras profundas marcavam seu rosto. Ele trazia nas mãos um gravador digital antigo, daqueles com pequenas luzes de LED piscando, conectado a um cabo USB.
Bruna deu um passo para trás, o rosto subitamente perdendo a cor vibrante que ostentava instantes antes. Seus lábios entreabriram-se em um muxoxo de pavor contido.
— O que você pensa que está fazendo, Caio? — rosnou Roberto, o irmão mais velho, irritado com a interrupção. — Não vê que estamos resolvendo um negócio de família crucial? Fique longe disso com suas manias de artista fracassado!
— Negócio de família? Ou golpe de pilantra, Roberto? — Caio devolveu com um sorriso cínico, cruzando os braços e caminhando lentamente em direção à mesa principal. Ele não olhou para a cunhada viúva inicialmente; seus olhos estavam cravados em Bruna, que tremia de leve, apesar de tentar manter a pose de mulher fatal. — Sabe o problema de vocês, os magnatas da família Albuquerque? Vocês acham que dinheiro compra caráter, silêncio e, principalmente, o passado. Mas esquecem que o Humberto, por mais escroto que fosse em vida, tinha um hábito muito peculiar que ele nunca perdeu desde a infância na Mooca: ele gravava absolutamente tudo.
Doutor Valmir ajeitou os óculos novamente, intrigado.
— Caio, seja claro. A que você está se referindo? Estamos diante de um documento com firma reconhecida...
— Firma reconhecida não prova índole, doutor — cortou Caio, parando bem ao lado da mesa, exatamente em frente a Bruna. Ele colocou o gravador digital sobre a madeira, bem ao lado do contrato de renúncia de Clara. — Duas semanas antes de morrer, meu irmão me ligou de madrugada. Ele estava furioso. Sabe por quê? Porque ele descobriu que estava sendo chantageado.
Um silêncio constrangedor e pesado desabou sobre o ambiente. Tia Carmem cruzou os dedos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Mentira! Ele está mentindo! Isso é uma invenção desse drogado para roubar a minha parte! — Bruna gritou, avançando um passo, a voz aguda ecoando pelas paredes da mansão. O desespero agora transbordava por cada poro de seu corpo. Ela olhou para seu jovem advogado, que parecia tão perdido quanto um marinheiro em terra firme. — Processa ele! Processa esse vagabundo por difamação!
— Calma, menina, o processo vai rolar, mas não vai ser do jeito que você quer — Caio respondeu com uma calma gélida, olhando fixamente nos olhos arregalados da jovem. — Humberto era um homem desconfiado. Ele nunca confiou em ninguém, nem nas mulheres com quem se relacionava. Quando Bruna apareceu grávida, dizendo que o filho era dele, Humberto fez o que qualquer homem paranóico e rico faria: exigiu um exame de DNA prenatal clandestino antes de assinar qualquer documento de reconhecimento. E, ao mesmo tempo, começou a gravar as conversas que tinha com ela na suíte do hotel onde eles se encontravam.
Clara levantou a cabeça lentamente. O luto, antes carregado de dor e submissão, deu lugar a uma curiosidade feroz. Ela olhou para o cunhado com uma mistura de gratidão e espanto.
— Caio... do que você está falando? — a voz de Clara saiu firme, cortando o ar.
— Estou falando, Clara, que o meu querido irmão falecido não era nenhum santo, mas ele também não era nenhum otário — Caio respondeu, virando-se para a viúva com um olhar de desculpa velada. — E o áudio que eu tenho aqui... bem, ele foi gravado exatos quatro dias antes daquele enfarte fulminante.
O desespero de Bruna atingiu o ápice. Ela deu um bote sobre a mesa, esticando os braços para tentar pegar o gravador digital, com uma agilidade felina surpreendente para quem estava grávida de sete meses.
— Me dá isso aqui! Isso é roubado! Isso é invasão de privacidade! — gritou ela, descontrolada.
Roberto, porém, foi mais rápido. Com um reflexo bruto, segurou os dois pulsos de Bruna com força, empurrando-a de volta para a cadeira onde seu advogado tentava contê-la em vão.
— Quieta, sua cobra! Deixa meu irmão falar! — ordenou Roberto, com uma fúria cega.
Caio conectou uma pequena caixa de som portátil via bluetooth ao gravador digital. O som de um bipe curto ecoou pela sala.
— Este áudio estava na nuvem de Humberto, numa pasta oculta que ele me deu a senha há anos, caso algo "estranho" acontecesse com ele na construtora. Escutem bem. O tom de voz diz tudo.
Caio apertou o botão de reprodução.
O chiado estático de um ambiente abafado preencheu a sala de jantar. Logo em seguida, a voz inconfundível de Humberto Albuquerque irrompeu pelos alto-falantes, áspera, cansada e furiosa:
— Chega de teatro, Bruna! Eu já li o laudo do laboratório! O teste de DNA que mandei fazer em segredo deu negativo! Esse filho não é meu! Você inventou essa gravidez para dar o golpe do baú em cima da minha separação!
A sala inteira congelou. Os parentes entreolharam-se em choque absoluto.
A voz de Bruna, amplificada pela gravação, soou em um tom histérico, completamente diferente da pose polida que ela mantinha minutos antes:
— Você acha que vai me descartar assim, Humberto? Depois de tudo o que eu fiz? Se você não assinar o testamento e passar os bens para o meu nome, eu espalho para a imprensa e para a sua mulher todos os esquemas de propina que você fez com os fiscais da prefeitura! Eu acabo com a sua construtora, com o seu nome e com a sua vidinha de burguês de merda!
O som da voz de Humberto respondeu, rindo com um amargor profundo:
— Pode tentar, garota. Mas quem vai presa por extorsão e falsidade ideológica vai ser você. Amanhã mesmo vou à delegacia com esses laudos. Para mim, acabou.
Um bipe final encerrou a reprodução.
O silêncio que caiu sobre a mansão dos Albuquerque era denso, pesado como chumbo. Ninguém ousava respirar alto.
Bruna estava paralisada. Seus braços caíram frouxamente ao lado do corpo, o rosto completamente desprovido de cor, parecendo uma estátua de cera. O jovem advogado dela levantou-se da cadeira lentamente, recolheu a pasta preta e deu três passos para trás, desassociando-se completamente da cliente num piscar de olhos.
— Dona Bruna, acho que o meu escritório não vai poder representá-la nesta causa... — murmurou o rapaz, apavorado, antes de caminhar a passos largos em direção à porta de saída, sumindo pelo corredor.
Roberto olhou para a jovem com uma expressão de puro ódio, enquanto Tia Carmem fazia o sinal da cruz freneticamente no peito, balbuciando rezas contra o mal.
Clara permaneceu sentada. Olhou para o gravador digital sobre a mesa. Depois, ergueu os olhos lentamente para Bruna, que agora chorava copiosamente, sem maquiagem, sem pose, reduzida ao seu verdadeiro reflexo de desespero.
— Então... — a voz de Clara ecoou, calma, fria e cortante como uma lâmina de barbear. — Era esse o seu grande futuro, menina?
CAPÍTULO 3
O choro de Bruna, antes contido pela pose de mulher intocável, transformou-se em soluços abafados que ecoavam pelas paredes frias da mansão. Ela tentou dar um passo em direção à porta, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. O verniz de sua armação havia desabado por completo, revelando a fragilidade patética de quem apostara tudo em um blefe e perdera a partida de forma retumbante.
Roberto deu um passo à frente, com o punho fechado, pronto para expulsar a golpista a pontapés, mas Clara levantou a mão direita, num gesto elegante e autoritário que fez o cunhado estacas no mesmo lugar.
— Não encoste nela, Roberto — disse Clara, com uma serenidade que parecia assustar a todos na sala. Ela se levantou calmamente da cadeira, ajeitou a gola do vestido de luto e caminhou pausadamente ao redor da mesa de mogno até parar bem diante de Bruna. — A violência física nunca resolveu nada nesta casa. Deixe que a justiça e a realidade façam o seu trabalho.
Bruna levantou o rosto banhado em lágrimas, os olhos borrados de rímel preto dando-lhe uma aparência quase grotesca.
— Por favor... Dona Clara... me perdoe... eu estava desesperada... — gaguejou a jovem, tentando segurar a barra do vestido da viúva, que se afastou com um movimento seco, como quem evita tocar em algo impuro. — Eu não tenho para onde ir... o pai da criança verdadeira sumiu... eu só queria garantir um teto...
— O teto que você tentou me arrancar — respondeu Clara, sem um pingo de compaixão na voz, mas também sem ódio; apenas com uma indiferença gélida. — Você quis brincar com a história da minha vida, com vinte anos de dedicação a um homem que, no fim das contas, era tão canalha quanto os seus métodos. A diferença, Bruna, é que você subestimou a inteligência de quem passou duas décadas convivendo com a paranoia dos Albuquerque.
Doutor Valmir, que acompanhava tudo com os olhos arregalados, limpou a garganta e recolheu o contrato de renúncia que estava sobre a mesa, rasgando-o em quatro pedaços miúdos diante de todos.
— Bem... à luz das novas evidências trazidas pelo senhor Caio, e considerando que o reconhecimento de paternidade foi baseado em fraude e extorsão, este documento torna-se juridicamente nulo e inexistente — declarou o advogado, reassumindo sua postura profissional. — Dona Clara permanece como a única e legítima herdeira universal dos bens deixados por Humberto Albuquerque.
Tia Carmem soltou um suspiro aliviado, levantando as mãos para o céu.
— Glória a Deus! Pelo menos o patrimônio da família não vai parar nas mãos de uma aventureira de quinta categoria! — comemorou a tia, já voltando a demonstrar a sua habitual hipocrisia burguesa.
Roberto bufou, cruzando os braços, mas parecia satisfeito por ver o perigo imediato afastado. Ele olhou para Bruna com desprezo absoluto.
— Ouviu bem, garota? Suma daqui antes que eu chame a polícia e entregue essa gravação direto para o delegado titular do 15º Distrito. Você tem exatamente dez minutos para desocupar o terreno desta casa.
Bruna não esperou ouvir mais nada. Com um guincho abafado, virou-se e disparou em direção à porta da entrada, correndo desajeitadamente com seus saltos altos e sua barriga falsa ou verdadeira, sumindo pelo corredor como um rato acuado. A porta bateu com força ao longe.
O silêncio retornou à sala de jantar, mas a atmosfera havia mudado radicalmente. O peso sufocante fora substituído por uma tensão estranha, quase elétrica. Os parentes de Humberto agora olhavam para Clara com uma mistura de respeito forçado e cautela evidente. Eles sabiam que a mulher mansa e submissa que engolia desaforos havia morrido ali, naquele instante.
— Bom... — disse Roberto, quebrando o gelo com um sorriso amarelo e falso, estendendo as mãos de forma conciliadora. — Crise evitada. Agora podemos reajustar os termos da partilha entre nós, os irmãos, e garantir que a empresa continue funcionando sob o nosso controle...
Clara virou-se lentamente para o cunhado. Seus olhos faiscavam com uma luz que ninguém jamais havia visto neles em vinte anos de casamento.
— Partilha entre vocês, Roberto? — perguntou Clara, com um tom de voz perigosamente suave.
— Ora, Clara, é claro! — interviu Tia Carmem, com um tom de quem dava uma bronca em uma criança ignorante. — Humberto era nosso irmão consanguíneo. É justo que parte da construtora e dos investimentos voltem para a nossa família de sangue. Você já tem a mansão e a pensão vitalícia garantidas pela lei. Não seja gananciosa.
Clara soltou uma risada curta, seca e cristalina que ecoou pelas paredes de mármore. Era uma risada que desarmava qualquer pretensão de autoridade dos parentes. Ela caminhou até a ponta da mesa, onde os papéis do inventário ainda jaziam espalhados, e recolheu a pasta oficial com firmeza.
— Gananciosa? — Clara olhou fixamente para Tia Carmem e depois para Roberto. — Durante vinte anos, eu fui a fachada social desta família. Eu aguentei as traições de Humberto, os desvios de conduta dele, os negócios obscuros que vocês fingiam não ver porque adoravam surfar nos lucros que caíam nas suas contas bancárias todo santo mês. Eu gerenciei cada crise, limpei a barra da construtora em reuniões com prefeitos corruptos que o Humberto mandava eu entreter na nossa casa, e vocês acham que eu vou dividir um único centavo do que construí com o meu suor psicológico e emocional?
O rosto de Roberto empalideceu de raiva.
— Você não tem direito a tudo, Clara! A lei brasileira prevê os direitos dos colaterais em certas circunstâncias! Nós vamos te processar até o último fio de cabelo!
— Tente, Roberto. Tente me processar — desafiou Clara, inclinando-se sobre a mesa, impondo respeito absoluto na sala. — E lembre-se de que o Caio tem um servidor inteiro na nuvem cheio de áudios do Humberto detalhando não só a extorsão daquela garota, mas também os empréstimos fantasmas e os caixa-dois que esta família operava através da construtora há mais de uma década. Quer mesmo abrir esse processo e expor os esqueletos todos no jornal de domingo?
Roberto travou. Seus lábios tremeram, mas nenhuma palavra saiu. Ele olhou para o irmão Caio, que permanecia encostado na ombreira da porta, com um sorriso irônico e cúmplice no rosto, girando o gravador digital entre os dedos.
— É isso aí, família — disse Caio, quebrando o impasse com sua voz rouca. — A partilha acabou por hoje. O show encerrou. Sugiro que todos voltem para suas casas e comecem a procurar empregos honestos, porque a teta seca aqui.
Tia Carmem levantou-se abruptamente, aterrorizada, resmungando pragas baixinho enquanto recolhia sua bolsa de grife. Roberto a seguiu a passos largos, bufando de ódio e frustração, seguido pelos demais parentes que abandonaram a sala em fila indiana, pisando em ovos, temerosos de que Clara decidisse destruir o resto de suas reputações ali mesmo.
Em poucos minutos, a sala de jantar imensa esvaziou-se por completo. Restaram apenas Clara e Caio.
O zumbido do ar-condicionado central voltou a ser o único som audível no ambiente. Clara respirou fundo, sentindo o peso dos últimos anos desabar de seus ombros, não como um fardo, mas como uma casca velha que finalmente se rompera. Ela caminhou até a janela panorâmica que dava para o jardim bem-cuidado da mansão, observando o sol da tarde banhar as copas das árvores do Morumbi.
Caio aproximou-se devagar, parando a alguns passos dela, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans.
— E agora, arquiteta? O que pretende fazer com este império de cimento e mentiras? — perguntou ele, com um tom genuinamente curioso e respeitoso.
Clara virou-se para o cunhado. Um sorriso leve, autêntico e livre brotou em seus lábios pela primeira vez em muito tempo. Seus olhos brilhavam com uma energia nova, a promessa de um recomeço absoluto.
— Vou demolir tudo, Caio — respondeu ela, com firmeza na voz. — E construir algo novo do zero. E, desta vez, os alicerces vão ser meus.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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