#ContoCurto #Ficção #Autoral O conteúdo do conto acima é apenas para entretenimento e é totalmente fictício.
CAPÍTULO 1: O PREÇO DA CONFIANÇA
A luz do fim de tarde entrava pelas grandes janelas do apartamento de Clarice, no coração de Moema, em São Paulo. Era um imóvel antigo, com piso de taco bem encerado e paredes repletas de quadros que ela mesma havia escolhido ao longo de quinze anos de casamento. Clarice, uma arquiteta de quarenta e dois anos, conhecida por sua elegância discreta e olhar observador, estava sentada na mesa da sala de jantar. À sua frente, a tela do notebook brilhava, refletindo nos seus olhos castanhos uma realidade que ela relutou em aceitar por meses.
Os extratos bancários da conta conjunta que mantinha com o marido, Marcelo, não mentiam. O dinheiro que deveria estar rendendo na aplicação para a futura faculdade dos filhos, ou para a planejada reforma da casa de praia, havia sumido. Não em pequenas parcelas, mas em transações massivas, justificadas por Marcelo como "investimentos de alto risco em uma nova startup de logística".
— Alto risco... — sussurrou Clarice para si mesma, com a voz embargada, mas sem derramar uma única lágrima.
Ela fechou os olhos por um segundo, lembrando-se de como Marcelo, um corretor de imóveis de alto padrão, andava distante. Ele já não a olhava nos olhos, passava noites inteiras em "reuniões com clientes internacionais" e exalava um perfume importado que Clarice sabia muito bem que não tinha comprado para ele. O estalo final veio no dia anterior, quando ela, ao organizar o escritório dele na casa, encontrou uma pasta de couro legítimo oculta no fundo de uma gaveta trancada. Dentro, a escritura de uma cobertura duplex na Vila Nova Conceição, um dos metros quadrados mais caros do país. O comprador? Marcelo. A beneficiária e residente? Uma jovem de vinte e cinco anos chamada Letícia Ramos.
Clarice não gritou. Não quebrou os vasos de cristal da sala. O coração, que antes parecia um tambor descompassado, de repente desacelerou, encontrando uma calmaria fria e calculista. Ela conhecia o tipo de homem que Marcelo era: orgulhoso, vaidoso e terrivelmente medroso diante do julgamento social. Se ela armasse um barraco, ele simplesmente pediria o divórcio, contrataria os melhores advogados usando o restante do dinheiro oculto e a deixaria em uma batalha judicial desgastante por anos. Não, o preço daquela traição não seria pago em um tribunal comum. Seria pago no palco que ele mesmo montou.
O telefone de Clarice vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de texto de uma amiga que trabalhava no mesmo círculo de corretores de luxo.
"Amiga, você não vai acreditar. O Marcelo está convidando o pessoal da diretoria para um 'open house' neste sábado. Ele está dizendo que é a comemoração de um super projeto novo. O endereço é aquela cobertura na Vila Nova."
Clarice sorriu. Um sorriso sem humor, que mal tocou seus olhos.
— Então haverá uma festa de inauguração — disse ela, o plano já se desenhando perfeitamente em sua mente.
Nesse momento, a porta da frente se abriu. Marcelo entrou, jogando as chaves na mesa da entrada. Ele era um homem atraente, com cabelos grisalhos nas têmporas, vestindo um terno sob medida que exalava o sucesso que ele tanto gostava de ostentar.
— Boa noite, querida — disse ele, aproximando-se para um beijo rápido no rosto de Clarice, que ela não evitou, mantendo o corpo rígido. — Que dia corrido. O mercado imobiliário está uma loucura. Mal tive tempo de almoçar.
— Imagino, Marcelo. Você tem trabalhado tanto ultimamente. Dedicando-se a novos... projetos, não é? — Clarice perguntou, fechando a tela do notebook com calma.
Marcelo hesitou por uma fração de segundo, ajustando o nó da gravata.
— Sim, sim. Uma captação grande. Se der certo, vai mudar o nosso patamar financeiro. Mas e você? Como foi o dia?
— Produtivo. Muito produtivo — ela respondeu, levantando-se. — Estive pensando sobre o próximo sábado. Sei que você tem aquele compromisso de negócios importante. Eu estava pensando em ir com você. Afinal, faz tempo que não saímos juntos para comemorar suas vitórias.
O rosto de Marcelo empalideceu sutilmente. Ele pigarreou, tentando disfarçar o desconforto.
— Ah, Clarice... Sabe como é, vai ser uma coisa muito técnica, só o pessoal da corretoria, muita conversa chata sobre índices econômicos. Você ia ficar entediada. Prefiro que a gente reserve o próximo fim de semana para um jantar só nosso no Fasano. O que acha?
— Bobagem, meu amor. Eu adoro o seu mundo. E além do mais, eu já organizei tudo. Inclusive, tomei a liberdade de convidar um acompanhante muito especial para ir conosco. Um velho conhecido que tenho certeza que vai adorar ver o que você construiu.
Marcelo franziu a testa, a desconfiança piscando em seus olhos.
— Quem?
— Surpresa — Clarice respondeu, com uma suavidade quase angelical. — Você vai ver no sábado. Agora, vá tomar um banho. Você parece cansado.
Quando Marcelo virou as costas e caminhou em direção ao quarto, Clarice pegou o celular. Ela procurou na agenda por um nome que não discava há anos. Um homem cuja influência no passado havia moldado carreiras e cujos segredos eram guardados a sete chaves. Ela respirou fundo e apertou o botão de chamar.
— Alô? Dr. Arthur? Aqui é a Clarice. Sim, quanto tempo... Preciso de um favor do senhor. Um favor que só o senhor pode me fazer.
CAPÍTULO 2: O JOGO DAS APARÊNCIAS
O sábado chegou com o céu limpo de São Paulo, mas para Marcelo, a atmosfera parecia carregada de uma eletricidade invisível. Ele havia passado os últimos dias tentando descobrir quem era o tal convidado de Clarice, mas a esposa mantivera um silêncio absoluto, agindo como se tudo estivesse perfeitamente normal. Ela preparava o café, conversava sobre os filhos que estavam no acampamento de férias e sorria. Aquele sorriso, no entanto, começava a dar arrepios em Marcelo.
No final da tarde, a cobertura na Vila Nova Conceição estava impecável. O apartamento exalava luxo contemporâneo, com paredes de vidro que mostravam a vista deslumbrante do Parque Ibirapuera. Letícia, a amante, usava um vestido de grife justo, vermelho, e circulava entre os convidados com uma taça de champanhe na mão. Ela se comportava como a rainha daquele novo castelo. Marcelo havia dito a ela que a esposa estava viajando e que os poucos diretores da empresa presentes entenderiam a situação como "discreta".
— Está tudo perfeito, meu amor — sussurrou Letícia no ouvido de Marcelo, enquanto os convidados conversavam ao som de uma bossa nova suave. — Mal posso esperar para todos irem embora e ficarmos sozinhos.
— Sim, está ótimo — respondeu Marcelo, mas seus olhos não paravam de vigiar a porta do elevador social que dava acesso direto à cobertura. Ele sentia um nó no estômago. Por que Clarice não havia insistido em ir com ele naquela tarde? Será que ela tinha desistido?
Enquanto isso, no andar térreo do edifício, um carro de luxo preto estacionou. O motorista abriu a porta traseira. Clarice saiu primeiro. Ela vestia um longo vestido azul-marinho, clássico, sem decotes exagerados, mas que exalava uma autoridade inquestionável. Suas joias eram discretas, herança de família. Em seguida, um homem de cabelos totalmente brancos, postura ereta apesar dos setenta anos, e um terno de corte impecável, saiu do veículo. Seu olhar era afiado, o olhar de quem já viu e controlou os bastidores do poder por décadas.
— Tem certeza de que quer fazer isso desta forma, Clarice? — perguntou o homem mais velho, a voz grave e pausada.
— Absoluta, Dr. Arthur. O senhor sabe melhor do que ninguém que a verdade só tem impacto quando é revelada no momento de maior soberba do mentiroso. Ele usou a minha vida para construir isso. É justo que o senhor veja.
— Então, vamos subir — consentiu Arthur, oferecendo o braço a ela.
O elevador subiu silenciosamente até a cobertura. Quando as portas se abriram diretamente no salão principal do apartamento, o som da música e das risadas preencheu o ambiente. Alguns convidados se viraram para ver quem chegava. Marcelo, que estava perto do bar conversando com seu chefe direto, congelou ao ver a silhueta de Clarice.
Um calafrio subiu por sua espinha. Ele sentiu o suor frio brotar na testa. O que ela está fazendo aqui? Como ela descobriu o endereço? pensou, o pânico ameaçando romper sua máscara de vendedor de sucesso.
Clarice entrou no recinto com passos firmes, mantendo o braço entrelaçado ao do Dr. Arthur. Ela olhou ao redor, fingindo admirar a decoração, e seus olhos finalmente encontraram os de Marcelo. Em vez de raiva, ela desferiu um aceno sutil e um sorriso caloroso.
Marcelo, tentando desesperadamente controlar a situação antes que um escândalo público destruísse sua carreira e sua reputação com a diretoria, caminhou rapidamente em direção a eles. Ele tentava manter o sorriso no rosto, mas seus dentes estavam trincados.
— Clarice! O que... o que significa isso? — sussurrou ele, aproximando-se, os olhos saltando dela para o homem ao seu lado. — Eu disse que era um evento de negócios...
— Ora, Marcelo, não seja rude — Clarice disse em um tom perfeitamente audível para as pessoas mais próximas. — Você disse que era uma comemoração importante. E eu fiz questão de trazer alguém que você conhece muito bem, embora não o veja há algum tempo. Você não vai cumprimentar nosso convidado de honra?
Marcelo finalmente focou seus olhos no homem idoso. A princípio, a iluminação difusa do apartamento o confundiu, mas quando o Dr. Arthur deu um passo à frente, saindo da penumbra, as pernas de Marcelo vacilaram. O sangue pareceu sumir de seu rosto.
Antes que Marcelo pudesse articular uma única palavra, Letícia, que vinha caminhando alegremente em direção ao namorado para ver quem eram os novos convidados, parou abruptamente a dois metros de distância.
Seus olhos se arregalaram em puro terror. A taça de cristal que ela segurava escorregou de seus dedos, chocando-se contra o piso de porcelanato importado. O som do vidro se estilhaçando e do vinho tinto se espalhando como sangue pelo chão fez com que toda a música e as conversas da sala cessassem instantaneamente.
CAPÍTULO 3: O CASTELO DE CARTAS
O silêncio que se instalou na cobertura era sufocante. Todos os olhares da sala estavam fixos na mancha de vinho no chão e nas quatro figuras que pareciam estátuas no centro do salão. Marcelo estava paralisado, com a boca entreaberta, olhando alternadamente de Letícia para o Dr. Arthur.
Letícia estava pálida, tremendo visivelmente. Suas mãos, agora vazias, subiram até a boca como se tentasse abafar um grito de pânico.
— Vovô...? — a voz de Letícia saiu como um sopro frágil, quebrando o silêncio do ambiente.
Os convidados murmuraram, confusos. Marcelo sentiu o chão sumir sob seus pés. Vovô? A mente de Marcelo girava em alta velocidade, tentando conectar os pontos de um pesadelo que ele nunca imaginou viver.
O Dr. Arthur Ramos não era apenas um homem rico e influente do setor financeiro de quem Marcelo tentava aproximar-se há anos para conseguir investimentos. Ele era o patriarca de uma das famílias mais tradicionais e implacáveis do estado. E era, acima de tudo, o avô protetor de Letícia — a neta que ele havia mandado para o exterior para estudar e que supostamente estava morando sozinha em um bairro nobre enquanto iniciava sua carreira.
Arthur olhou para Letícia com uma mistura de profunda decepção e autoridade gélida. Depois, seu olhar se voltou para Marcelo, transformando-se em puro desprezo.
— Então é aqui que você passa os seus finais de semana, Letícia? — a voz de Arthur ecoou pelo salão, firme e sem qualquer hesitação. — E este é o "grande empresário" que você disse que estava te ajudando a se colocar no mercado imobiliário? Um homem casado, que usa o dinheiro da esposa para sustentar uma farsa?
— Vovô, por favor, eu não sabia... Ele me disse que estava se separando! — mentiu Letícia, desesperada, as lágrimas finalmente rolando pelo seu rosto borrado de maquiagem.
— Silêncio, Letícia — cortou Arthur, com um simples erguer de mão. — Você sabe muito bem quais são os valores da nossa família. Ou melhor, sabia. Suas malas já estão sendo feitas no seu antigo apartamento. Você vai voltar para o interior amanhã mesmo. E a sua mesada e o fundo fiduciário estão cancelados a partir deste instante.
Letícia olhou para Marcelo, esperando que ele dissesse algo, que a defendesse, mas Marcelo parecia um homem condenado à fuzilamento. Ele sabia que o Dr. Arthur tinha o poder de destruir sua corretora e sua carreira com um único telefonema.
Clarice deu um passo à frente, a imagem viva da serenidade. Ela olhou para o marido e depois para a cobertura deslumbrante.
— Sabe, Marcelo, quando eu descobri que você transferiu o fundo de investimento dos nossos filhos para comprar este lugar, eu pensei em fazer o que qualquer esposa traída faria. Pensei em gritar, em expor você. Mas aí eu me lembrei de quem é o verdadeiro dono do poder nesta cidade. Lembrei-me de que o Dr. Arthur, um querido amigo de longa data do meu falecido pai, sempre prezo pela honra e pela verdade.
Marcelo finalmente encontrou sua voz, embora ela tenha saído falha e patética.
— Clarice... por favor... podemos conversar em casa? Foi um erro, um delírio... Eu amo você, eu posso explicar...
— Não há nada para explicar, Marcelo — Clarice disse, mantendo o tom calmo e firme que manteve durante toda a noite. — Os papéis do divórcio já foram redigidos pelo escritório do Dr. Arthur. Como você usou o dinheiro do casal para comprar este imóvel em nome de terceiros, configurando fraude e ocultação de bens, nós vamos ficar com este apartamento, além da nossa casa atual. Você sairá apenas com suas roupas. E quanto ao seu emprego... bem, o chefe da sua diretoria está logo ali atrás de você. Acho que ele tem algumas perguntas sobre os desvios de fundos que você tentou maquiar na empresa.
O diretor da corretora, que assistia a tudo com os braços cruzados e uma expressão de profunda desaprovação, apenas assentiu com a cabeça em direção a Marcelo.
Marcelo desabou psicologicamente. O homem orgulhoso e vaidoso de minutos atrás parecia agora encolhido, destruído pela própria ganância. Ele olhou ao redor e viu os rostos de seus colegas de trabalho, pessoas que ele tentava impressionar, cheios de desprezo e deboche silencioso. O castelo de cartas que ele havia construído com mentiras e o dinheiro de Clarice havia desmoronado completamente, e ele estava soterrado sob os escombros.
Clarice olhou para o Dr. Arthur, que lhe estendeu o braço novamente.
— Vamos embora, Clarice? Este ambiente já cumpriu o seu propósito — disse o velho senhor.
— Vamos sim, Dr. Arthur. O ar aqui ficou subitamente muito pesado — respondeu ela.
Antes de se virar para o elevador, Clarice olhou uma última vez para Marcelo, que continuava estático no mesmo lugar, olhando para o chão sujo de vinho.
— Tenha uma boa noite, Marcelo. E aproveite a festa. Ela é toda sua.
As portas do elevador se fecharam, deixando para trás o silêncio ruidoso de uma ruína total, enquanto Clarice descia em direção à sua nova liberdade.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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