Capítulo 1 – O Homem que Eu Enterrei
Fiquei paralisada no meio do trânsito ensurdecedor da Avenida Paulista, com os pés colados no asfalto quente e o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito. As buzinas soavam como gritos impacientes, motos passavam raspando, e o céu cinza de São Paulo parecia mais baixo do que nunca, como se estivesse prestes a cair sobre mim.
Foi ali, naquele segundo suspenso entre um semáforo e outro, que o mundo desabou.
Eu o vi.
— Não… — sussurrei, sem voz.
Ele estava ali, a poucos metros de mim. Sentado ao volante de um carro preto, moderno, desses que eu só via em comerciais de TV. O rosto era o mesmo. Um pouco mais maduro, talvez, mas inconfundível. O homem que eu enterrei cinco anos atrás, sob uma chuva fina, em um cemitério simples da Zona Leste.
Meu marido.
O homem por quem chorei noites inteiras. Aquele cujo nome eu ainda evitava dizer em voz alta.
Ele estava vivo.
Seu olhar era calmo, distante, quase indiferente. Não havia susto, nem pressa, nem culpa estampada no rosto. Apenas serenidade. Uma serenidade fria, que me atravessou como um golpe silencioso.
— Isso não é real… — pensei, sentindo as pernas fraquejarem.
Ao lado dele, no banco do passageiro, estava uma mulher. Elegante, bem vestida, maquiagem discreta, postura firme. Ela sorria levemente enquanto falava algo que eu não conseguia ouvir. Em seguida, apoiou a mão sobre o ombro dele. Um gesto simples, automático. Íntimo demais.
Não era a mão de uma desconhecida. Era a mão de quem pertencia àquela vida.
O sinal abriu. O carro avançou.
E eu, sem pensar, corri.
Atravessei a rua ignorando os gritos dos motoristas, sentindo o coração explodir no peito. Entrei no meu carro com as mãos trêmulas e segui atrás deles, como se algo maior do que a razão estivesse no controle.
Durante cinco anos, eu sobrevivi como pude. Depois do “acidente”, foi isso que todos disseram. Um acidente trágico, corpo irreconhecível, caixão lacrado. Eu aceitei. Ou fingi aceitar.
Trabalhei dobrado em uma padaria no Brás, vendi nossos poucos móveis, paguei dívidas que não eram só minhas. Aprendi a dormir sozinha. A comer sozinha. A ser viúva antes dos trinta.
E agora ele dirigia tranquilamente, como se eu nunca tivesse existido.
O carro entrou em um bairro nobre. Prédios altos, ruas silenciosas, porteiros atentos. Um mundo distante daquele que um dia foi o nosso. Ele estacionou em frente a um prédio moderno, com fachada de vidro e câmeras por todos os lados.
Parei alguns metros atrás.
Desci do carro sentindo o chão girar. Foi então que a mulher me viu.
Ela me olhou por alguns segundos. Não houve surpresa. Apenas reconhecimento.
— Você é ela, não é? — disse, com a voz baixa.
Meu corpo inteiro gelou.
— Quem é você? — perguntei, com dificuldade.
Ela respirou fundo, como quem se prepara para algo inevitável.
— Meu nome é Helena. — Fez uma pausa. — E você precisa saber a verdade.
Ele desceu do carro naquele instante. Quando nossos olhos se encontraram, vi algo que doeu mais do que qualquer mentira.
Indiferença.
— Não era para isso acontecer — ele murmurou.
— Não era para você estar vivo — respondi, sentindo as lágrimas finalmente caírem.
E foi ali, diante daquele prédio, que minha vida começou a se partir em duas.
Capítulo 2 – A Verdade que Nunca Foi Minha
Sentamos em um café discreto a duas quadras do prédio. Eu mal sentia o gosto do açúcar no café. Helena mantinha a postura firme, enquanto ele evitava me olhar diretamente.
— Começa — eu disse. — Começa pelo motivo de eu ter enterrado um homem que nunca morreu.
Ele passou a mão pelo rosto, nervoso.
— Eu não tinha escolha.
— Sempre existe escolha — retruquei.
Helena foi quem falou.
— Ele estava afundado em dívidas. Pessoas perigosas. Gente que não aceita atraso, nem explicações.
— E eu? — interrompi. — Eu não merecia saber?
— Você era a parte mais difícil — ela respondeu, com honestidade cruel. — Se soubesse, não daria certo.
Ele finalmente me encarou.
— Eu precisava desaparecer. Criar outra identidade. Outro nome. Outra vida.
— E me deixar enterrando memórias sozinha? — minha voz falhou.
Silêncio.
— Eu pensei que você fosse seguir em frente — ele disse, baixo.
Ri. Um riso curto, amargo.
— Eu segui. Mas carregando um morto que respirava em outro lugar.
Helena segurou a xícara com força.
— Quando o conheci, ele já era outra pessoa. Eu não sabia de você no começo.
— E quando soube? — perguntei.
— Já era tarde.
Naquele momento, entendi tudo. Eu não tinha sido esposa. Tinha sido sacrifício. A peça descartável de um plano bem executado.
Levantei-me.
— Fiquem com essa vida perfeita — disse. — Ela não me pertence.
Saí do café sem olhar para trás. Pela primeira vez em anos, não senti vontade de chorar.
Capítulo 3 – O Que Nasce Depois do Fim
Os meses seguintes foram estranhos. Como acordar depois de um pesadelo longo demais. Fiz terapia. Mudei de emprego. Comecei a estudar à noite.
Às vezes, cruzava a Avenida Paulista e lembrava daquele dia. Do momento em que tudo ruiu.
Nunca mais o vi.
Soube, por conhecidos, que ele mudou de cidade. Que recomeçou de novo. Outra vez.
Dessa vez, não me afetou.
Cinco anos depois, caminho pelas ruas de São Paulo com outra postura. Não sou viúva. Não sou abandonada. Sou alguém que sobreviveu a uma história que não escolheu.
Aprendi que alguns finais não pedem explicações. Pedem coragem.
E hoje, quando me olho no espelho, não vejo mais alguém enterrada.
Vejo alguém viva.
Finalmente viva.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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