Capítulo 1 – As Chamas do Passado
O vento quente de janeiro soprava forte pelas ruas estreitas de Olinda, carregando o cheiro do mar e o som distante de festas de carnaval que começavam a se anunciar. Mariana corria pela praia deserta, os pés afundando na areia molhada, lembranças dolorosas corroendo seu peito. Dez anos haviam se passado, mas a traição de seu pai ainda queimava em sua memória como brasas que não se apagavam.
“Como ele pôde, mãe? Como pôde nos abandonar assim?” — a voz infantil de Mariana ecoava na sala vazia de sua antiga casa, que agora cheirava a mofo e lágrimas. Sua mãe, Dona Carmem, segurava a menina nos braços, tentando conter o desespero.
Naquela época, Júlia havia chegado à cidade com sua beleza quase sobrenatural. Cabelos negros que brilhavam à luz do sol, olhos verdes hipnotizantes e um sorriso que parecia prometer mundos que Pedro nunca havia visto. Ele, cego pela paixão repentina, deixou sua família sem uma palavra de explicação. Desde então, Mariana cresceu ouvindo a mesma dor e ressentimento: o mundo podia ser injusto, mas ela prometeu que não se deixaria ser vítima novamente.
Agora, na beira da praia, olhando para o horizonte, Mariana respirou fundo. Mudara-se para Recife, estudara administração e trabalhava em um hotel de luxo, onde aprendia a lidar com pessoas influentes, a observar fraquezas humanas e a esconder seus próprios sentimentos. Ela se chamava Lorena ali, uma identidade cuidadosamente construída para se afastar do passado e se aproximar de seu alvo: Caio, filho de Júlia.
Naquela manhã, Lorena entrou na sala de reuniões da empresa onde Caio trabalhava. Ele estava lá, rindo de um comentário de um colega, o cabelo despenteado, a postura despreocupada. Era impossível não notar sua confiança natural. Ela sentiu um frio percorrer sua espinha — mistura de ansiedade e excitação.
“Bom dia, Sr. Caio. Prazer em conhecê-lo, sou Lorena, a nova estagiária do departamento de marketing.”
Caio levantou o olhar, surpreso com a presença dela. “Prazer, Lorena. Adoro nomes que soam sofisticados. Venha, vou te mostrar a empresa.”
Enquanto caminhavam pelos corredores envidraçados, Lorena observava cada detalhe. Cada gesto, cada palavra de Caio, cuidadosamente anotados em sua mente. Mas algo começou a desconcertá-la: Caio não tinha traços de malícia, não carregava a frieza que ela imaginava herdada da mãe. Ele era apenas... humano, gentil.
Naquela noite, Lorena sentou-se em seu apartamento, revendo mentalmente cada movimento do dia. “Não posso me deixar distrair, Mariana. Lembre-se do seu objetivo. Justiça. Vingança. Nada mais importa.” Ela murmurou, a voz trêmula. Mas seu coração teimava em discordar.
O passado a chamava com força, mas a sombra de Júlia ainda era maior. Mariana sabia que teria que confrontá-la, e logo, para que a verdade viesse à tona e sua vingança pudesse finalmente começar.
Capítulo 2 – Entre o Desejo e a Razão
Recife era vibrante, mas também cruel em sua superficialidade. Lorena começou a frequentar os eventos da alta sociedade, cada encontro uma oportunidade para observar Júlia, cada conversa com Caio uma chance de se aproximar de seu objetivo.
“Você realmente gosta desse lugar?” — Caio perguntou durante uma visita à praia de Boa Viagem, enquanto Lorena admirava o pôr do sol.
“Gosto. É lindo, e sempre me faz pensar... nas coisas que a gente quer, mas ainda não consegue ter.” Ela desviou o olhar, escondendo a pontada de dor que sentia.
Caio riu, sem perceber a profundidade daquelas palavras. “Eu sei bem como é. Às vezes parece que o mundo decide por você.”
À medida que os dias passavam, Lorena se via presa entre o desejo de vingança e a crescente admiração por Caio. Ele era diferente de qualquer pessoa que conhecera, e a ideia de fazê-lo sofrer por erros da mãe parecia cada vez mais injusta.
Num jantar elegante na casa de Júlia, Mariana sentiu o veneno da memória surgir. Júlia estava deslumbrante, rindo alto, cercada por admiradores. Mas havia algo em seus olhos — uma mistura de orgulho e medo — que a Lorena fez estremecer.
“Lorena, querida, você está cada vez mais bonita. A cidade fala de você!” Júlia disse, sua voz melíflua, cheia de segundas intenções.
Lorena sorriu, mantendo a compostura. “Obrigada, Sra. Júlia. Estou tentando aprender com os melhores.”
Enquanto falava, Mariana percebeu que Júlia não era invencível. Pequenas falhas, olhares furtivos, gestos que revelavam insegurança. E naquele momento, Mariana percebeu que sua maior força estava na verdade que ela guardava.
Mas a batalha interna se intensificava. Cada gesto de gentileza de Caio a fazia questionar: poderia ela realmente machucar alguém tão puro e honesto?
Naquela noite, Lorena sentou-se sozinha no terraço de seu apartamento, olhando para o céu estrelado. “Talvez a vingança não seja o caminho... talvez haja outra forma de justiça.”
E foi aí que uma carta antiga, encontrada no escritório de Júlia, revelou algo inesperado: Júlia também havia sido traída por Pedro, enganada antes de seduzir seu pai. O mundo não era preto e branco. E Lorena precisaria decidir: o que valia mais, a vingança ou a verdade?
Capítulo 3 – A Revelação e o Perdão
O grande baile de Recife foi o palco da decisão. A cidade inteira estava presente, e as luzes refletiam nas fachadas envidraçadas, criando uma atmosfera de tensão quase palpável. Lorena entrou elegante, cada passo calculado, o coração batendo com força.
Ela encontrou Júlia conversando com algumas figuras influentes. Respirou fundo e se aproximou, mantendo o sorriso frio que aprendera a usar com perfeição.
“Boa noite, Júlia. Lembra-se de mim?” A voz firme fez algumas pessoas ao redor olharem.
Júlia ergueu uma sobrancelha. “Lorena, querida... mas você não é só a estagiária nova?”
“Não exatamente.” Lorena respirou fundo, sentindo toda a energia que acumulou nos últimos dez anos. “Tenho algumas coisas para esclarecer. Coisas sobre o passado... e sobre as escolhas que todos fizemos.”
O silêncio caiu sobre a sala. Todos os olhares se voltaram para as duas mulheres. Lorena expôs a verdade: a traição de Pedro, a dor que sofreu, e as manipulações de Júlia. Mas em vez de atacar Caio, ela falou da justiça da verdade, da força de quem sofre, mas escolhe não destruir o inocente.
Caio, que observava a cena sem acreditar, se aproximou, tocando o braço de Lorena. “Eu não sabia de nada... mãe, como pôde?” A dor e a confusão estavam estampadas em seu rosto.
Júlia, humilhada, recuou, a máscara de confiança quebrando. “Eu... eu só quis sobreviver, Caio... não foi só você.”
Lorena respirou fundo. “A dor existe, Júlia, mas agora é hora de cada um assumir suas escolhas. Eu escolho seguir em frente.”
Ao final da noite, Lorena e Caio conversaram longamente. Ela explicou seu passado, ele ouviu com atenção, e uma nova amizade começou a se formar, baseada em respeito e admiração, não em vingança. Júlia, por sua vez, perdeu influência e prestígio, mas aprendeu que a manipulação tem limites.
Na manhã seguinte, Lorena caminhou pela praia, sentindo o sol aquecer seu rosto. O vento trazia o cheiro do mar e a lembrança de que a vida continuava. Ela havia transformado sua dor em força, e pela primeira vez, sorria sem ressentimento.
O passado existia, mas não a definia. E naquele instante, Mariana — ou Lorena — sabia que a verdadeira vitória não era fazer o outro sofrer, mas reconstruir sua própria felicidade.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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