CAPÍTULO 1 – OS DIAS EM QUE O SOL SE APAGOU NO RIO
— “Paulo… espera. Por favor.”
A voz de Ana quase se perdeu no corredor do hospital, abafada pelo som metálico da maca sendo empurrada. Paulo parou por um segundo, a mão ainda segurando o celular, o rosto tenso, impaciente.
— “Eu volto depois. Preciso resolver umas coisas.”
— “Você disse isso ontem.”
Ele suspirou, como quem já está cansado antes mesmo de tentar.
— “Ana, eu não posso ficar aqui o tempo todo.”
A porta se fechou. Não com força. Não com raiva. Mas com uma indiferença que doeu mais do que qualquer palavra.
Naquele instante, Ana entendeu que algo havia se quebrado — não apenas em seu corpo.
Horas antes, o quarto estava cheio de luz. O recém-nascido dormia tranquilo, e Ana sorria apesar da exaustão. Ela ainda acreditava que tudo ficaria bem. Mas quando tentou se levantar, as pernas não responderam. Um frio percorreu sua espinha. Médicos entraram, vozes se cruzaram, termos técnicos voaram pelo ar.
— “Vai passar?” ela perguntou, agarrando a mão de Paulo.
Ele não respondeu. Apenas desviou o olhar.
Dias depois, o diagnóstico veio como um peso silencioso: complicações neurológicas. Reabilitação longa. Mobilidade comprometida. Nada definitivo, nada simples.
Ana chorou. Paulo ficou em silêncio.
Antes, Ana era conhecida em Santa Teresa como “a menina do samba”. Seu corpo seguia o ritmo como se tivesse nascido dele. Ela conhecera Paulo no Carnaval, entre confetes e suor, quando ele a girou no meio da multidão.
— “Você dança como se o mundo não pudesse te tocar.”
— “Porque quando eu danço, ele não toca mesmo.”
Eles se apaixonaram rápido. Casaram rápido. E Ana acreditou — acreditou como só quem ama de verdade acredita — que aquilo bastava.
Mas agora, no pequeno apartamento com vista para os telhados antigos do bairro, Paulo mal ficava em casa. O choro do bebê parecia irritá-lo. O som da cadeira de rodas no chão, também.
— “Isso tudo está me sufocando,” ele disse certa noite.
Ana engoliu em seco.
— “Eu também estou com medo.”
— “Você não entende. Minha vida está parada.”
Ela quis rir. Quis gritar. Mas ficou em silêncio.
Algumas semanas depois, ele não voltou.
Uma mensagem curta. Fria.
“Vou para São Paulo. Preciso de um tempo.”
O tempo virou ausência. A ausência virou abandono.
Ana ficou. Com o filho. Com o corpo que não obedecia. Com a lembrança de um homem que prometera ficar.
E naquela primeira noite sozinha, ouvindo o mar distante, Ana chorou não só pelo que perdeu — mas pelo que teria que aprender a ser.
CAPÍTULO 2 – TRÊS ANOS DE SILÊNCIO
Três anos podem ser nada para quem corre. Mas para quem aprende a andar de novo, são uma vida inteira.
Ana acordava cedo. Não por hábito, mas porque o filho exigia o mundo logo ao amanhecer. Miguel crescera rápido, curioso, atento. Perguntava sobre tudo.
— “Mamãe, você dançava?”
Ela sorriu.
— “Danço de outro jeito agora.”
O centro de reabilitação virou sua segunda casa. Lá, conheceu pessoas que também haviam perdido algo — e encontrado outra coisa no lugar. Uma fisioterapeuta insistente. Um músico voluntário. Uma assistente social que falava com o coração.
— “Você ainda tem ritmo,” disse o músico um dia, batendo levemente no tambor.
Ana fechou os olhos. O corpo não se mexeu como antes, mas o som… o som ainda era dela.
Foi assim que começaram as aulas. Primeiro uma criança. Depois duas. Depois dez. Crianças com diferentes limitações, mas com o mesmo brilho nos olhos quando o samba começava.
— “Aqui ninguém precisa ser perfeito,” Ana dizia. “Só precisa sentir.”
Enquanto isso, em São Paulo, Paulo vestia ternos caros. Camila ao seu lado. Jantares elegantes. Fotos em revistas.
— “Você não sente falta do Rio?” Camila perguntou certa vez.
Ele pensou por um segundo.
— “Sinto falta do que eu poderia ter sido lá.”
Nunca disse o nome de Ana.
Quando o projeto cultural chegou, Ana hesitou.
— “Eu não sou ninguém.”
— “Você é exatamente quem precisamos,” responderam.
Ela aceitou.
Na primeira palestra, suas mãos tremiam.
— “Eu pensei que minha vida tinha acabado,” disse ao microfone. “Mas descobri que ela só estava mudando de ritmo.”
O aplauso foi longo. Verdadeiro.
Ana voltou para casa naquela noite com algo novo no peito: dignidade.
CAPÍTULO 3 – O CHOQUE QUE NINGUÉM ESPERAVA
Paulo leu o nome três vezes.
Ana Ribeiro.
O café esfriou em sua mão. A foto era recente. Ela sorria — não um sorriso fraco, mas firme. Miguel ao lado, orgulhoso.
— “Camila…”
— “O que foi?”
Ele mostrou a revista. Ela leu em silêncio.
— “Ela decide os financiamentos?”
— “Sim.”
O silêncio ficou pesado.
Dias depois, Camila falou com calma:
— “Eu não posso casar com alguém que abandonou quem mais precisava.”
— “Eu errei,” Paulo sussurrou.
— “Errar é diferente de virar as costas.”
Ela se foi.
Paulo ficou.
Em Rio, Ana fechava a porta do centro cultural quando Miguel puxou sua mão.
— “Mamãe, a música está tocando.”
Ela ouviu. Sorriu.
Não era o fim da história.
Era apenas o começo — no ritmo que ela escolheu viver.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
Comentários
Postar um comentário