Capítulo 1 – Lama no Salão de Mármore
O silêncio dentro da agência bancária foi quebrado por um som estranho: chlap.
Não era tiếng chuông, nem tiếng bước giày da bóng loáng thường thấy. Đó là tiếng bùn ướt bị ép xuống nền đá cẩm thạch.
Alguns clientes quay đầu lại, khó chịu. Uma senhora bem vestida franziu o nariz. Um homem de terno consultou o relógio, impaciente. Foi então que todos o viram.
O homem estava coberto de lama dos pés à cabeça. A camisa, que um dia talvez tivesse sido branca, grudava no corpo magro. A calça estava dobrada até os joelhos, ainda úmida. O rosto, marcado pelo sol e pelo cansaço, parecia ter envelhecido dez anos em uma semana.
Ele entrou como quem não pede licença, mas também não desafia. Caminhou em linha reta até o balcão.
— Quero sacar dinheiro da minha poupança, disse, com a voz rouca.
A funcionária levantou os olhos lentamente. O olhar percorreu o homem de cima a baixo, sem disfarçar o julgamento.
— O senhor… tem certeza de que está no lugar certo? — perguntou, fria.
Atrás dela, um colega soltou um riso abafado.
— Deve ter confundido banco com abrigo — murmurou alguém.
O homem colocou o caderno de poupança sobre o balcão. As páginas estavam manchadas, mas o nome era legível. Ele então disse o valor.
A funcionária piscou.
— Esse valor é… muito alto.
— Eu sei.
Ela respirou fundo, claramente incomodada.
— Senhor, vou precisar verificar. Enquanto isso, peço que aguarde ali.
Um segurança começou a se aproximar. O clima ficou pesado, tenso, como antes de uma tempestade.
O homem não levantou a voz. Não se explicou. Apenas virou o corpo lentamente e apontou para a grande porta de vidro da agência.
— Olhem.
Do lado de fora, a cena não combinava com o luxo do banco. A avenida estava interditada. Caminhões do Corpo de Bombeiros, ambulâncias, voluntários cobertos de lama. Pessoas simples seguravam sacolas de doação. Crianças descalças. Um helicóptero sobrevoava baixo.
Um repórter falava para a câmera:
— Estamos em frente à agência bancária onde se encontra neste momento João Ferreira, o homem que financiou o resgate de centenas de pessoas após as enchentes no interior do estado…
Um funcionário da prefeitura avançou até a porta, viu o homem lá dentro e curvou-se respeitosamente.
— Senhor João Ferreira, disse alto, com a voz ecoando pelo salão. — Em nome da cidade… obrigado.
O banco inteiro ficou mudo.
A funcionária sentiu o sangue fugir do rosto ao olhar novamente o nome no caderno.
João Ferreira.
O mesmo dos noticiários.
O mesmo que havia usado dinheiro próprio para comprar barcos, alimentos, combustível.
O segurança recuou, sem saber onde colocar as mãos.
— Se não fosse o senhor… — continuou o funcionário — …muita gente não teria sobrevivido.
João apenas assentiu, cansado.
— Eu só preciso do dinheiro — disse. — Ainda tem gente esperando.
E naquele instante, cercado de mármore e vergonha, ninguém teve coragem de levantar os olhos.
Capítulo 2 – Três Dias Submersos
Três dias antes, o telefone não parava de tocar.
— João, a água subiu de novo!
— João, o acesso pela estrada sumiu!
— João, tem criança presa no telhado!
Ele olhava pela janela do escritório da fazenda, vendo o rio transbordar como nunca antes. Respirou fundo.
— Quanto temos em caixa? — perguntou ao contador.
— Se sacar tudo… compromete a empresa.
João fechou os olhos por um segundo.
— Empresa nenhuma vale mais que gente viva.
Horas depois, ele estava dentro de um barco, remando junto com bombeiros voluntários. Não usava colete novo, nem luvas. Só força e pressa.
— Tem mais alguém aí? — gritava.
Uma mulher apareceu na janela do segundo andar, segurando um bebê. Chorava.
— Calma, senhora. Eu estou aqui.
A lama chegava ao peito. O cansaço queimava os músculos. Mas João não parou.
À noite, sentado no chão molhado de uma escola transformada em abrigo, ele dividia um pedaço de pão com um menino.
— O senhor é rico? — perguntou o garoto, curioso.
João sorriu de leve.
— Hoje? Não muito.
No terceiro dia, quando o combustível acabou e o dinheiro também, alguém perguntou:
— E agora?
João respondeu sem pensar:
— Agora eu vou ao banco.
Ele sabia como seria visto. Sabia do terno que não vestia, do cheiro de lama que carregava. Mesmo assim, foi.
Porque enquanto alguém estivesse sem água potável, a vergonha não importava.
Capítulo 3 – O Peso da Lama
De volta à agência, o gerente apareceu ofegante.
— Senhor João, peço desculpas. Isso não reflete nossos valores.
João o encarou, sério, mas sem raiva.
— Reflete, sim. Só não gostam de admitir.
A funcionária segurava as lágrimas.
— Eu… eu sinto muito. Julguei o senhor.
— Não foi só a mim — respondeu ele. — Foi a todos que estão lá fora.
Os papéis foram assinados rapidamente. O dinheiro liberado.
Quando João saiu, o sol da tarde bateu em seu rosto cansado. As pessoas abriram caminho. Ninguém aplaudiu. Ninguém falou alto.
Uma criança correu até ele e abraçou suas pernas sujas de lama.
— O moço voltou! — gritou.
João se abaixou com dificuldade.
— Ainda não acabou, campeão.
Ele caminhou de volta para o caos, para a lama, para o trabalho invisível.
E dentro do banco, cercados por vidro e silêncio, todos entenderam tarde demais:
a lama nunca esteve nas roupas dele.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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