#ContoCurto #Ficção #Autoral O conteúdo do conto acima é apenas para entretenimento e é totalmente fictício.
CAPÍTULO 1: O NIDINHO DE AMOR E O PREÇO DO DESPREZO
A chuva fina que caía sobre o subúrbio do Rio de Janeiro parecia abafar o som dos passos de Carlos enquanto ele ajudava Mariana a entrar no carro. Ela estava pálida, com os olhos fundos e uma fraqueza que a impedia até de segurar a própria bolsa. Diagnosticada semanas antes com uma doença autoimune severa, Mariana precisava de cuidados constantes. Carlos, com uma falsa expressão de cortar o coração, segurou a mão da esposa e olhou para os sogros, Seu Antenor e Dona Wilma, que aguardavam no portão da antiga casa de varanda comprida.
— Olha, Seu Antenor, o médico disse que o melhor para ela agora é o repouso absoluto e o carinho da família. Lá em casa, com a correria do meu trabalho na distribuidora, eu não vou conseguir dar a atenção que ela merece. Eu estou despedaçado, mas sei que aqui ela vai se recuperar mais rápido — mentiu Carlos, forçando um nó na garganta.
Mariana olhou para o marido. Não havia brilho em seus olhos, apenas uma quietude profunda, quase misteriosa. Ela não chorou, não reclamou. Apenas apertou a mão de Carlos e sussurrou:
— Você está fazendo exatamente o que precisa ser feito, Carlos. Vá em paz. Viva a sua vida. Eu vou cuidar da minha.
— Com certeza, meu amor. Volto para te ver no final de semana — respondeu ele, depositando um beijo frio na testa da esposa antes de fechar a porta do carro e entregá-la aos cuidados dos pais.
Assim que dobrou a esquina da rua de paralelepípedos, a fisionomia de Carlos mudou drasticamente. O semblante de marido sofredor deu lugar a um sorriso de orelha a orelha. Ele ligou o rádio do carro, sintonizou em um pagode animado e bateu no volante no ritmo da música. Pegou o celular e discou o número que estava salvo discretamente como "Cláudio Mecânico".
— Alô, Vanessa? Meu amor, pode pegar as malas. A casa está limpa! A sonsa já ficou na casa dos pais. Passou o caminhão, o caminho está livre! — comemorou ele, rindo alto.
Duas horas depois, Vanessa já desfilava pela sala do apartamento de Carlos e Mariana. Jovem, vaidosa e ambiciosa, ela jogou sua bolsa de marca falsificada sobre o sofá de linho que Mariana havia escolhido com tanto carinho. Vanessa olhou em volta, analisando cada detalhe da decoração.
— Até que a falecida em vida tinha bom gosto, Carlinhos — desdenhou Vanessa, rindo enquanto abria a geladeira e pegava uma garrafa de espumante. — Mas falta cor nesse lugar. Falta a minha energia. Amanhã mesmo vou trocar essas cortinas beges por algo mais vivo.
— Você faz o que quiser, minha rainha. Agora a dona do pedaço é você — disse Carlos, abraçando-a por trás e beijando seu pescoço. — Foram três anos nos escondendo em motel barato, agora a gente tem o nosso teto. E o melhor de tudo: ela me deu a procuração total dos bens na semana passada, com medo de não conseguir assinar nada por causa dos tremores nas mãos. O dinheiro do tratamento que o plano de saúde não cobre? Está todo na minha conta. Ela acha que eu vou pagar as consultas particulares, mas quem vai renovar o guarda-roupa é você.
Vanessa soltou uma gargalhada cristalina, sentindo-se a verdadeira vitoriosa daquela situação. Eles passaram a tarde bebendo, rindo e planejando como gastariam o dinheiro. Carlos sentia um alívio imenso. Ele via Mariana apenas como um fardo, uma mulher que havia envelhecido e adoecido ao seu lado, enquanto Vanessa representava a juventude e a curtição que ele achava que merecia.
No entanto, o que Carlos ignorava completamente era o peso do silêncio de Mariana. Enquanto ele achava que a esposa era ingênua, Mariana vinha descobrindo as traições há meses. Ela tinha acesso clonado às conversas de WhatsApp do marido, sabia de cada PIX feito para Vanessa e, acima de tudo, conhecia o caráter do homem com quem se casara. A doença era real, mas a fragilidade extrema que demonstrou nos últimos dias era, em parte, um teatro meticulosamente calculado. Mariana sabia que, ao se afastar, Carlos morderia a isca imediatamente.
Naquela mesma noite, por volta das nove horas, Carlos e Vanessa preparavam um jantar comemorativo. O clima era de festa. Carlos abriu o melhor vinho da adega. Enquanto a carne grelhava na cozinha americana, o celular de Carlos, que estava sobre o balcão, vibrou. Era uma notificação de entrega.
— Ué, comprou alguma coisa na internet, preta? — perguntou Carlos, olhando para a tela.
— Eu não. De deve ser algum entregador de aplicativo errado — respondeu Vanessa, sem dar importância.
Segundos depois, o interfone do apartamento tocou. Um som estridente que quebrou a música ambiente. Carlos atendeu.
— Pois não?
— Seu Carlos? Aqui é da portaria. Chegou uma entrega especial para o senhor e para a sua… acompanhante. O entregador disse que é de extrema importância e que foi pago para entregar em mãos. Estou subindo pelo elevador de serviço.
Carlos franziu a testa, confuso.
— Entrega? De quem?
— Não tem nome do remetente, senhor. Só diz que é um presente de boas-vindas para a nova fase da casa.
Carlos desligou o interfone e olhou para Vanessa, que agora parecia curiosa.
— Quem será? Algum amigo seu da firma sabendo que a gente está junto? — perguntou ela, ajeitando o cabelo.
— Não sei. Eu não comentei com quase ninguém da distribuidora ainda. Vamos ver o que é.
O elevador apitou no corredor. Carlos abriu a porta do apartamento e se deparou com um entregador uniformizado, segurando uma caixa grande de madeira escura, amarrada com uma fita de cetim vermelha grossa. O homem não sorria. Apenas entregou a caixa, fez um aceno com a cabeça e disse:
— Aproveitem a noite. O espetáculo está apenas começando.
Antes que Carlos pudesse perguntar qualquer coisa, o entregador deu meia-volta e entrou no elevador. Carlos fechou a porta, sentindo um calafrio estranho espalhar-se por seus braços. Ele colocou a caixa pesada sobre a mesa de jantar. Vanessa aproximou-se, os olhos brilhando de curiosidade.
— O que é isso, Carlinhos? Abre logo!
Carlos puxou a fita vermelha. Ao levantar a tampa da caixa de madeira, o casal deu um passo para trás, chocados com o conteúdo. Não era um presente comum. Dentro da caixa, repousava um tablet com a tela preta, cercado por dezenas de fotos impressas. Carlos pegou uma das fotos com as mãos trêmulas. Eram imagens dele e de Vanessa, em momentos íntimos no motel, na praia, entrando no prédio. Mas o que congelou o sangue de Carlos foi a data e a hora impressas no rodapé de cada foto: todas tinham sido tiradas por um detetive particular ao longo dos últimos seis meses.
De repente, a tela do tablet acendeu sozinha, iluminando a sala escura com uma luz azulada e fria. Um cronômetro digital começou uma contagem regressiva a partir de 10 minutos. E, logo abaixo do cronômetro, surgiu uma mensagem em letras garrafais vermelhas:
"O JOGO DA VERDADE COMEÇOU. SE VOCÊS SAÍREM PELA PORTA OU DESLIGAREM O APARELHO, OS VÍDEOS DE VOCÊS DOIS SERÃO ENVIADOS PARA TODA A DIRETORIA DA DISTRIBUIDORA E PARA A POLÍCIA FEDERAL AGORA MESMO. DIVIRTAM-SE."
CAPÍTULO 2: O CRONÔMETRO DO MEDO
O silêncio que se instalou no apartamento era tão denso que era possível ouvir o tique-taque mental da contagem regressiva no tablet. Vanessa deixou a taça de vinho cair de suas mãos. O cristal se espatifou no chão de porcelanato, espalhando o líquido vermelho como se fosse sangue.
— Carlos… o que é isso? Que palhaçada é essa?! — a voz de Vanessa subiu dois tons, carregada de desespero. — Quem está fazendo isso com a gente? É a sua esposa? Aquela morta-viva fez isso?
Carlos estava paralisado. Seus olhos iam do cronômetro — que agora marcava 08:42 — para as fotos espalhadas na mesa. Ele reconheceu os locais. Reconheceu os dias em que disse a Mariana que estava fazendo hora extra na distribuidora de bebidas.
— Não pode ser… A Mariana está doente, ela mal consegue levantar da cama! Ela não teria cabeça nem dinheiro para contratar um detetive e armar uma presepada dessas — gaguejou Carlos, tentando manter o controle, embora o suor frio já escorresse por sua nuca. — Deve ser algum trote. Algum chantagista.
— Trote?! Carlos, olha aquela tela! Olha o que está escrito sobre a Polícia Federal! O que você andou fazendo nessa distribuidora, Carlos? Você me disse que o dinheiro que estava usando para me bancar era das suas comissões!
Antes que Carlos pudesse responder, o tablet emitiu um bipe sonoro agudo. A tela mudou. A contagem regressiva subiu para o canto superior esquerdo, e um vídeo começou a ser reproduzido automaticamente. Na imagem, Mariana aparecia sentada em uma cadeira de rodas, mas seu semblante não era de uma mulher derrotada. Ela vestia um terninho elegante e olhava diretamente para a câmera com um sorriso calmo, quase angelical, que causou mais medo em Carlos do que qualquer ameaça gritada.
— Olá, Carlos. Olá, Vanessa. Sejam bem-vindos à nova vida de vocês — disse Mariana no vídeo, com a voz firme e pausada. — Carlos, você achou mesmo que eu era cega? Achou que trinta anos de convivência e parceria não tinham me ensinado a ler cada mentira que sai da sua boca? Eu sei sobre a Vanessa desde o primeiro dia. Sei sobre as viagens para Cabo Frio que você dizia ser convenção de vendas. E sei, principalmente, sobre o desvio de verbas que você vem fazendo na distribuidora usando o nome de laranjas.
Carlos sentiu as pernas fraquejarem e desabou em uma das cadeiras da mesa de jantar. O esquema de desvio de dinheiro na distribuidora era o seu maior segredo. Ele vinha superfaturando notas fiscais há dois anos, e usava justamente esse dinheiro para manter o padrão de vida de Vanessa e abrir uma conta secreta.
— Carlos, me fala que isso é mentira! — gritou Vanessa, segurando o homem pelo colarinho da camisa. — Você me envolveu em roubo? Eu posso ir presa! A minha família é de respeito, Carlos!
— Cala a boca, Vanessa! Deixa eu ouvir! — berrou ele, empurrando-a para o lado.
Na tela, Mariana continuava o seu monólogo gravado:
— Vocês devem estar se perguntando o que vai acontecer quando esse cronômetro chegar a zero. Bem, Carlos, você foi muito esperto ao me fazer assinar aquela procuração de plenos poderes na semana passada. Mas o que você não leu, porque estava apressado demais para transar com a sua amante no nosso sofá, foram as cláusulas de confissão de dívida e transferência de ativos anexadas ao documento que o meu advogado preparou. Quando você assinou como meu procurador, você automaticamente transferiu todas as suas cotas da distribuidora e o saldo da sua conta secreta para um fundo de tratamento de doenças autoimunes no meu nome. Você está oficialmente falido.
— Não… Não, não, não! Isso é ilegal! Eu vou anular isso na justiça! — gritou Carlos para a tela, como se Mariana pudesse ouvi-lo em tempo real.
— Mas a falência é o de menos — a voz de Mariana no vídeo parecia prever a reação do marido. — Às dez horas em ponto, ou seja, daqui a exatamente cinco minutos, um e-mail com todas as provas do seu desvio de verbas e as fotos da sua evolução patrimonial incompatível será enviado para o Ministério Público e para o dono da distribuidora. A menos… que vocês joguem o meu jogo até o fim.
O vídeo pausou. Uma nova mensagem apareceu na tela:
"FAÇAM UMA ESCOLA. PARA PARAR O ENVIO DO E-MAIL, VANESSA DEVE GRAVAR UM VÍDEO NO PRÓPRIO CELULAR CONFESSANDO QUE SABIA DE TODO O ESQUEMA DE CORRUPÇÃO DE CARLOS E QUE COMPROU O CARRO DELA COM DINHEIRO ROUBADO. OU, CARLOS DEVE LIGAR PARA O DONO DA DISTRIBUIDORA AGORA E SE CONFESSAR, PEDINDO DEMISSÃO."
— Gravar um vídeo? Eu não vou gravar nada! Você enlouqueceu? Isso é a minha ruína! — chorou Vanessa, andando de um lado para o outro na sala, arrancando os próprios cabelos. — Eu vou embora desse apartamento agora! Isso é problema seu e da sua mulher maluca!
Vanessa correu em direção à porta de entrada e puxou a maçaneta. A porta não abriu. Ela tentou girar a chave, mas a fechadura eletrônica, que Carlos havia instalado meses antes para dar mais "segurança" ao casal, estava travada pelo sistema central de automação do prédio. Mariana também tinha o controle do aplicativo da casa.
— Carlos! A porta está trancada! A gente está preso aqui dentro! — a voz de Vanessa se transformou em um guincho de puro pavor.
Carlos correu até a janela da sala, que dava para a rua. Lá embaixo, estacionado sob a luz fraca do poste e a chuva que aumentava de intensidade, estava um carro preto com os faróis apagados. Dentro do carro, a silhueta de alguém observava a janela do apartamento. Carlos percebeu, com um aperto terrível no peito, que eles estavam cercados por uma teia perfeita.
— O tempo está acabando, Vanessa… — murmurou Carlos, olhando para o tablet. O cronômetro marcava 03:15. — Grava o vídeo. Por favor, grava o vídeo! Se eu for preso, nós dois caímos juntos. Se você gravar, a gente ganha tempo para fugir!
— Nunca! Você me usou, seu velho nojento! Você me disse que era livre, que tinha dinheiro! — cuspiu Vanessa, toda a doçura de antes desaparecendo instantaneamente, revelando sua verdadeira face interesseira. — Eu odeio você! Eu tomara que você apodreça na cadeia!
Os dois começaram a berrar um com o outro, trocando ofensas e empurrões no meio da sala que outrora prometeria ser o "ninho de amor" deles. A ganância e o egoísmo que os uniram agora agiam como o veneno que os destruía. E o cronômetro continuava a descer: 01:30… 01:29…
CAPÍTULO 3: A QUEDA DAS MÁSCARAS
Faltavam apenas sessenta segundos. O apartamento, que antes parecia um troféu de conquista para Carlos e Vanessa, transformou-se em uma cela de tortura psicológica. O cheiro da carne queimando na cozinha americana empesteava o ar, criando uma atmosfera sufocante, mas nenhum dos dois tinha coragem de se afastar da mesa de jantar, onde o tablet brilhava como uma bomba-relógio.
— Carlos, faz alguma coisa! Liga para o seu patrão, confessa, faz o que ela mandou! — implorou Vanessa, de joelhos no chão, as lágrimas borrando toda a sua maquiagem pesada. — Eu tenho vinte e quatro anos, Carlos! Eu não posso ir para um presídio feminino! Pensa em mim!
— Pensar em você? Você acabou de dizer que me odeia e que quer que eu apodreça na cadeia! — rebateu Carlos, o rosto vermelho de fúria e desespero. — Você só estava comigo por causa do dinheiro, sua sanguessuga! Se eu cair, você vai junto, porque o apartamento está no seu nome e as contas foram pagas com o dinheiro da distribuidora!
— Você é um monstro! — gritou ela, avançando contra ele com as unhas prontas para arranhar.
Carlos a segurou pelos pulsos, os dois respirando ofegantes, os rostos colados pelo ódio mútuo. Foi nesse exato momento, quando o cronômetro marcou 00:05, que o tablet emitiu um longo e contínuo sinal sonoro. BIIIIIIIIIP.
Os cinco segundos finais passaram. O cronômetro zerou.
Por um instante, o mundo pareceu parar. Carlos e Vanessa congelaram, esperando pelo pior. O e-mail com as denúncias teria sido enviado? A polícia bateria à porta a qualquer momento?
De repente, a tela do tablet mudou novamente. O fundo vermelho deu lugar a uma imagem ao vivo, via streaming de vídeo. A câmera estava posicionada em uma sala de estar bem iluminada e aconchegante. Na imagem, Mariana apareceu. Ela não estava na cadeira de rodas. Estava de pé, segurando uma taça de vinho tinto, vestindo um vestido deslumbrante que Carlos nunca tinha visto. Ao lado dela, estavam Seu Antenor, Dona Wilma e um homem de terno cinza, que Carlos reconheceu imediatamente como o Dr. Roberto, o advogado criminalista mais caro e renomado da região.
Mariana olhou para a câmera e deu um gole no vinho, sorrindo com uma elegância cortante.
— Boa noite, Carlos. Boa noite, Vanessa — disse Mariana, a voz saindo perfeitamente nítida pelos alto-falantes do tablet. — Espero que tenham gostado dos últimos dez minutos. Eles foram apenas uma pequena amostra do inferno que vocês mesmos cavaram para as suas vidas.
— Mariana! Pelo amor de Deus, Mariana! — gritou Carlos, aproximando-se do aparelho, falando desesperadamente com a tela. — Me perdoa! Eu errei, eu fui fraco! Mas não faz isso comigo, não me destrói! Eu posso consertar tudo! Eu volto para você, eu cuido de você!
Mariana soltou uma risada limpa, que ecoou pela sala do apartamento de forma humilhante.
— Voltar para mim, Carlos? Você realmente se acha o prêmio de uma loteria, não é? Deixe-me esclarecer uma coisa: a minha doença é real, mas o meu tratamento já começou e os médicos me deram excelentes prognósticos. O que era mentira era a minha fraqueza diante de você. Eu precisei parecer vulnerável para que a sua arrogância falasse mais alto. E funcionou perfeitamente. Você foi tão previsível. No mesmo dia em que me descartou como lixo, trouxe a sua amante para a nossa casa.
Vanessa se levantou do chão, limpando o rosto, tentando adotar uma postura defensiva.
— Você não pode provar que eu sabia do dinheiro roubado! Eu sou uma vítima aqui! O Carlos me enganou! — mentiu Vanessa, tentando salvar a própria pele.
— Ah, Vanessa, querida… Guarde as suas lágrimas para o juiz — rebateu Mariana, com desdém. — O detetive que contratamos não tirou apenas fotos de vocês em momentos românticos. Ele gravou os áudios das conversas de vocês no restaurante, onde você pedia explicitamente para o Carlos "desviar mais um pouco da distribuidora" para pagar a cirurgia plástica que você queria fazer no mês que vem. Está tudo documentado. Tudo registrado.
Carlos sentiu o chão sumir sob seus pés. Ele olhou para Vanessa com um nojo profundo, e ela desviou o olhar, sabendo que tinha sido desmascarada.
— E quanto ao e-mail para o Ministério Público e para o dono da distribuidora? — perguntou Carlos, com a voz embargada, contendo o choro. — Você já enviou?
O Dr. Roberto, o advogado ao lado de Mariana, deu um passo à frente e olhou para a câmera.
— Senhor Carlos, o e-mail foi programado para ser enviado exatamente às dez horas, como prometido. E, neste exato momento, o servidor da empresa e as autoridades competentes já receberam o arquivo completo com mais de duzentas páginas de provas de seus crimes financeiros. A esta hora, o dono da distribuidora já deve estar acionando o departamento jurídico e a polícia.
Carlos caiu de joelhos na sala. Toda a sua vida, seu status, seu carro do ano, seu orgulho de "malandro esperto" do subúrbio, tudo tinha desmoronado em questão de minutos. Ele estava desempregado, falido e, muito provavelmente, seria preso na manhã seguinte.
Mariana pegou novamente a taça de vinho e olhou bem no fundo da câmera, fixando seus olhos nos de Carlos. O olhar dela não era de raiva, era de libertação.
— Sabe, Carlos, o brasileiro tem um ditado que diz que 'aqui se faz, aqui se paga'. Você achou que a sua malandragem seria eterna e que a minha dignidade tinha preço. Você subestimou a mulher que esteve ao seu lado na pobreza e na riqueza. Agora, a fechadura eletrônica do apartamento foi desbloqueada. Vocês estão livres para sair. Mas saibam de uma coisa: a partir de amanhã, este apartamento será vendido para pagar parte das indenizações que você deve à distribuidora e a mim. Vocês têm até as seis da manhã para recolherem os seus panos de bunda e sumirem da minha propriedade.
— Mariana, por favor… — choramingou Carlos.
— Adeus, Carlos. Aproveite a sua nova vida com a sua amante. Vocês se merecem — concluiu Mariana.
A tela do tablet se apagou definitivamente. No mesmo instante, o som do clique da fechadura eletrônica ecoou pela sala. A porta estava aberta.
Carlos e Vanessa se olharam. Não havia mais paixão, não havia mais cumplicidade. Havia apenas o reflexo do fracasso mútuo. Vanessa, sem dizer uma única palavra, correu para o quarto, pegou as suas malas que mal tinham sido desfeitas e saiu correndo pelo corredor do prédio, deixando Carlos sozinho na sala escura, com o cheiro de carne queimada e o peso inevitável da justiça que batia à sua porta. Mariana, do outro lado da cidade, brindava com seus pais à sua nova chance de recomeçar, livre do homem que nunca soube o real valor do amor e da lealdade.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
.
Comentários
Postar um comentário