Capítulo 1 – Sussurros no Cemitério
O vento noturno cortava o pequeno vilarejo às margens do Rio Amazonas, carregando consigo o cheiro úmido da floresta e das folhas mortas. Lucas mal podia acreditar que estava de volta. Depois de anos estudando na cidade, longe do cheiro da terra e do café, ele retornava para o funeral de seu pai, Don Henrique, o patriarca da família mais influente da região. Um homem respeitado, temido, mas agora silencioso para sempre.
O cemitério ficava em uma pequena elevação, cercado por eucaliptos que rangiam sob o vento. A cerimônia foi breve, com os vizinhos murmurando condolências e os parentes mais próximos escondendo sorrisos sutis, aqueles que carregavam segredos há muito enterrados. Lucas sentiu a dor misturada com estranha desconfiança. Desde criança, percebeu que a riqueza de seu pai dividia mais do que unia a família.
Quando a última pá de terra caiu sobre o caixão, um frio súbito percorreu a espinha de Lucas. Ele se virou e viu o homem que sempre cuidou do cemitério com olhos sombrios e mãos trêmulas, aproximando-se lentamente.
— O caixão… está… leve demais — murmurou o trêmulo homem, com voz quase fantasmagórica.
Lucas congelou. Seus olhos procuraram alguma explicação: seria histeria do velho, ou algo mais sombrio? Antes que pudesse reagir, o homem soltou uma risada curta, quase maligna, e desapareceu entre as sombras das árvores.
Lucas voltou para a casa da família, mas o silêncio não lhe trouxe paz. O som do sussurro ainda ecoava em sua mente. Ele não conseguia dormir, a ansiedade correndo em seu sangue. Cada cômodo parecia carregado de lembranças, mas também de segredos escondidos atrás de portas fechadas e olhares suspeitos.
Ao redor da mesa de jantar, os irmãos conversavam sobre o futuro da fazenda. Mariana, a irmã mais velha, sempre tão serena e controlada, falou com uma calma inquietante:
— Precisamos decidir o que fazer com os negócios do pai. Ele nos deixou muitos bens, mas devemos agir rápido.
Lucas notou o brilho estranho nos olhos de Mariana, algo que ia além da preocupação com os negócios. Uma intuição lhe disse que havia algo errado. Mas naquela noite, ele preferiu não confrontar ninguém. Voltou para seu quarto, mas o sono não veio. Algo o chamava.
Quando a lua atingiu seu ponto mais alto, Lucas tomou uma decisão. Vestiu um casaco, pegou uma lanterna e saiu pela porta dos fundos, silencioso, caminhando entre árvores e lápides. O cemitério parecia diferente à noite, mais profundo, mais vivo. O vento arrastava sussurros que ele não conseguia identificar.
Ao chegar ao túmulo de seu pai, parou abruptamente. Uma sensação gelada percorreu seu corpo, e ele sentiu o coração disparar. Aproximou-se, a lanterna tremendo em suas mãos. O que viu o deixou paralisado: o túmulo estava vazio. A terra revolvida, sem caixão, sem corpo. Apenas o eco do vento passando entre as lápides.
— Isso… não é possível… — murmurou para si mesmo, incapaz de acreditar no que via.
Então, uma sombra se moveu atrás dele. Uma voz suave, porém fria, chamou seu nome:
— Lucas…
Ele se virou, e a luz da lanterna revelou Mariana, sua irmã mais velha, com o semblante sério e olhos penetrantes.
— Mariana… o que…? — ele engasgou.
Ela respirou fundo, e então, com um tom quase triunfante, disse:
— Papai não está morto. Pelo menos, não de verdade. Foi tudo planejado… para proteger os bens antes que o governo pudesse intervir.
O mundo de Lucas desmoronou em um instante. A traição de sua própria família queimava como fogo em seu peito. Ele sentiu raiva, medo e uma tristeza profunda pelo pai, que havia sido usado como peça em um jogo de poder.
Mariana aproximou-se, sussurrando quase como se tentasse seduzi-lo para a conspiração:
— Você pode nos ajudar, Lucas… ou permanecer do lado errado.
Ele recuou, sentindo a floresta como uma testemunha silenciosa de sua dor e confusão. O vento sibilava através das árvores, carregando algo que parecia um aviso, como se a própria Amazônia estivesse alertando-o. Lucas sabia que precisava pensar rápido. Não podia confrontá-los diretamente, pelo menos não ainda. A escuridão da noite parecia engolir tudo, menos a decisão que começava a se formar em sua mente.
Capítulo 2 – Entre Sombras e Segredos
Nas noites seguintes, Lucas se refugiou em sua antiga casa à beira do rio. Cada porta rangia, cada sombra parecia mover-se com intenções próprias. Ele começou a investigar discretamente, observando a família, anotando cada gesto, cada olhar cúmplice. O que mais o assombrava era o sorriso calculista de Mariana, sempre tão impecável, sempre tão fria.
Ele decidiu que precisava de ajuda de alguém de fora. Lembrou-se de um antigo professor de direito em São Paulo, renomado por lidar com casos de fraude e conspiração familiar. Enviou uma carta detalhando tudo que descobrira, ocultando sua própria identidade. Era arriscado, mas Lucas não podia enfrentar sozinho os irmãos de Mariana.
Enquanto isso, sua relação com a família se deteriorava rapidamente. Os irmãos, inconscientes de que Lucas desconfiava de tudo, continuavam suas discussões sobre o futuro da fazenda, cada palavra carregada de ganância e ambição. Lucas participava das conversas, mas cada gesto e cada palavra eram medidos, controlados.
— Lucas, você está muito quieto. Não está animado com a herança do pai? — perguntou Felipe, seu irmão do meio, sorrindo com malícia.
— Prefiro observar antes de me apressar — respondeu Lucas, tentando manter a calma.
As noites eram ainda mais aterrorizantes. Ele não conseguia se livrar da imagem do túmulo vazio, do silêncio do cemitério, da voz de Mariana chamando seu nome. Uma noite, decidiu retornar ao local. A floresta parecia viva, sombras dançavam entre as árvores e os sussurros aumentavam. Ele seguiu o caminho até o túmulo, encontrando marcas na terra que indicavam uma retirada recente do caixão.
— Quem faria isso? — murmurou, o coração batendo descompassado.
De repente, ouviu passos leves atrás de si. Virou-se, e novamente era Mariana, olhando-o com um sorriso de quem detinha todos os segredos.
— Lucas… você é mais perspicaz do que eu imaginava. Mas cuidado. O que começa no cemitério, não termina bem para quem hesita.
Ele engoliu em seco. O medo e a raiva se misturavam, criando uma determinação feroz. Não poderia deixar que a ganância destruísse tudo o que seu pai havia construído. A justiça precisava ser feita, e ele seria o instrumento dela.
De volta à casa, Lucas elaborou um plano. Entraria em contato com o advogado e esperaria o momento certo. Enquanto isso, fingiria não saber de nada, observando cada movimento da família. Cada gesto, cada palavra, cada sorriso seria registrado, como peças de um quebra-cabeça que um dia provariam a verdade.
O clima na casa tornou-se tenso. Mariana, sentindo que algo estava errado, começou a vigiar Lucas mais de perto, mas ele continuava calmo, controlado, escondendo o medo sob uma máscara de normalidade. A cada noite, no entanto, os sussurros do cemitério e o vento da Amazônia lembravam-no de que o tempo estava contra ele.
Capítulo 3 – Justiça Entre as Águas do Amazonas
Uma semana se passou desde que Lucas enviou a carta ao advogado em São Paulo. Ele observava a família com olhos atentos, cada sorriso, cada discussão sobre a herança. A tensão aumentava, pois Mariana começava a suspeitar que Lucas sabia mais do que aparentava.
Na manhã de sexta-feira, a família reuniu-se para celebrar o que acreditavam ser a consolidação dos bens do pai. Vinhos caros, pratos de frutos do mar e o riso forçado ecoando pelas paredes da casa à beira do rio. Lucas chegou calmamente, fingindo entusiasmo, mas dentro dele, a tempestade já estava prestes a explodir.
De repente, barulhos de sirenes cortaram o ar. Homens da polícia federal entraram, cercando a casa, ordenando que todos permanecessem onde estavam. Mariana e os irmãos foram detidos, acusados de fraude, conspiração para simular a morte de Don Henrique e ocultação de bens.
Lucas permaneceu em silêncio, observando a justiça finalmente se cumprir. Seus olhos se voltaram para o rio, e ali, escondida entre a vegetação, estava a pequena embarcação de seu pai. Don Henrique emergiu, cansado, mas vivo, um homem que tinha sido manipulado por aqueles que mais amava.
— Lucas… — disse ele, com uma voz rouca, mas cheia de orgulho — você fez a escolha certa.
Lucas olhou para o rio, sentindo a água correr lentamente, refletindo a luz do sol nascente. Compreendeu que riqueza e poder nunca valeriam a coragem, a honestidade e a coragem de lutar pela verdade.
A vila voltou lentamente ao seu ritmo, tranquila e silenciosa, mas entre os túmulos, a memória dos sussurros persistia, lembrando que nem todos os segredos podem ser enterrados para sempre.
Lucas sabia que, embora a paz tivesse retornado, o espírito da Amazônia continuaria observando, silencioso, paciente, pronto para sussurrar verdades aos que tivessem coragem de ouvir.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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