Capítulo 1 – O Retorno do Passado
A chuva caía pesada sobre o telhado de cerâmica da casa, espalhando um cheiro de terra molhada que me lembrava da infância em Minas Gerais. Eu, Mateus, caminhava pelo corredor com o coração apertado, olhando os móveis que permaneciam exatamente como Clara deixara, mas que agora pareciam carregados de silêncio e ausência. Minha esposa havia morrido muito jovem, e desde então eu vivia tentando equilibrar o trabalho, a casa e meu filho Gabriel, que naquela época tinha apenas cinco anos.
“Papai… você vai ficar em casa hoje?” A vozinha doce de Gabriel me arrancou de meus pensamentos. Ele estava encolhido no sofá, abraçando o ursinho que sempre levava consigo. Um aperto no peito me fez engolir a vontade de chorar. Cada dia longe dele parecia um castigo que eu mesmo me impunha, mas o trabalho em Belo Horizonte prometia segurança e dinheiro, algo que sozinho eu não conseguia garantir.
— Sim, meu filho. Hoje eu volto mais cedo — respondi, tentando soar firme, embora minha própria voz tremesse.
As palavras pareciam vazias quando olhei para ele, pequeno e confiante, mas ainda tão frágil diante da vida. Eu me lembrava de como Clara ria dele, de como ela sempre dizia: “Gabriel vai ser forte, mas sempre vai precisar de alguém ao lado.” E eu tentava ser esse alguém, mesmo sentindo que cada passo que eu dava longe de casa me afastava do que realmente importava.
As semanas se passaram, e as pessoas ao redor não paravam de me pressionar para recomeçar a vida. “Você não pode ficar sozinho para sempre”, diziam vizinhos e colegas do trabalho. Mas eu não sabia se estava pronto para confiar outra vez em alguém. Até que, numa festa de aniversário da cidade, conheci Ana. Ela já havia sido casada antes e tinha uma filha adolescente morando em outra cidade. Conversamos, rimos, e algo dentro de mim despertou. Ela não era Clara, mas havia algo genuíno em seu jeito de olhar para a vida e para as pessoas.
— Mateus, você sempre parece tão sério — disse Ana, rindo. — Eu acho que precisa aprender a se divertir mais.
— Talvez você esteja certa — respondi, com um sorriso que parecia sair de dentro de uma parte de mim que eu nem lembrava que existia.
Meses depois, casamo-nos. No início, fiquei apreensivo, principalmente com Gabriel. Será que ele aceitaria Ana? Mas logo percebi que Ana tratava meu filho com carinho genuíno, como se fosse dela. Um alívio me invadiu. Finalmente, eu podia respirar um pouco mais tranquilo, sentindo que meu filho estava seguro.
Porém, para sustentar a família, aceitei um emprego que me obrigava a viajar de segunda a sexta-feira. Cada despedida era dolorosa. No avião, olhando pela janela, pensava em Gabriel, em como ele estaria, se lembraria de mim, se Ana conseguia acalmá-lo quando sentia saudade. A saudade corroía meu peito, mas eu me convencida de que estava fazendo o melhor para eles.
Capítulo 2 – Segredos e Surpresas
Era uma quinta-feira chuvosa quando decidi voltar sem avisar. Queria vê-los, sentir o calor da minha casa, observar cada detalhe que havia perdido nos últimos meses. Entrei pela porta principal devagar, quase sorrindo com a expectativa de uma surpresa.
Mas ao abrir a sala, meu coração parou. Gabriel estava sentado no chão, com os olhos arregalados, abraçado a Ana. Ela chorava, mas não eram lágrimas de tristeza; eram lágrimas de emoção. Meu corpo congelou.
— Papai… — disse Gabriel, a voz trêmula, olhando para mim. — Eu tenho uma surpresa pra você…
No centro da sala, havia um desenho enorme. Gabriel havia desenhado nossa família unida: ele, Ana e eu, de mãos dadas, sorrindo. Um aperto no peito me fez engolir a emoção.
— Gabriel… — minha voz falhou. — Isso é lindo!
Ana se aproximou, enxugando as lágrimas. — Ele queria mostrar que, mesmo com a minha chegada, você ainda é o centro do mundo dele.
Senti uma mistura de alívio e culpa. Alívio por ver que eles estavam bem, mas culpa por todas as semanas em que estive ausente. Sentei no chão, abraçando meu filho, sentindo seu corpo pequeno se encaixar no meu.
— Eu senti tanto a sua falta, Gabriel — disse, segurando sua mão. — Mas prometo que vou estar mais perto, sempre.
Ana sorriu, e algo dentro de mim mudou naquele instante. Percebi que, apesar das perdas, havia espaço para recomeçar, para criar uma nova história, juntos.
Nos dias seguintes, a rotina voltou, mas nada era como antes. Cada conversa, cada refeição, cada risada, tinha um sabor novo. Ana e Gabriel se entendiam cada vez melhor, e eu sentia que minha ausência no trabalho valia a pena quando via a felicidade deles.
— Papai, vamos pintar juntos? — Gabriel perguntou uma tarde, puxando minhas mãos para o papel. — Quero que você esteja na minha história também.
Sorri, segurando os lápis coloridos. — Claro, meu filho. Hoje a gente pinta o nosso mundo.
E naquele momento, senti que finalmente podia descansar. Que, mesmo depois de tudo, a vida ainda tinha surpresas boas, e que o amor podia se reconstruir, pedaço por pedaço, no chão de uma sala simples de Minas Gerais.
Capítulo 3 – A Nova Chance
O tempo passou, e com ele vieram pequenas alegrias e grandes descobertas. Gabriel cresceu mais confiante, Ana mais tranquila, e eu finalmente aprendi que estar presente era mais importante do que estar sempre ocupado.
Certa manhã de domingo, acordamos com o sol entrando pela janela, iluminando a cozinha onde preparávamos o café juntos. Gabriel corria de um lado para outro, contando sobre a escola, enquanto Ana preparava pão de queijo fresco.
— Papai, hoje a gente vai ao parque? — perguntou Gabriel. — Quero mostrar meu desenho novo.
— Claro! — respondi, sentindo que cada sorriso dele era um lembrete de que a vida podia ser leve, mesmo depois da dor.
No caminho para o parque, conversamos, rimos e até brigamos de brincadeira. Vi a felicidade no olhar de Ana, senti o orgulho no sorriso de Gabriel, e compreendi que estávamos criando algo que jamais poderia ser destruído: confiança, afeto e pertencimento.
À tarde, sentados debaixo de uma árvore, Gabriel me entregou outro desenho. Desta vez, éramos uma família sorrindo sob o sol, com cores vibrantes e detalhes que só uma criança poderia imaginar.
— Viu, papai? Agora a gente tá sempre junto — disse ele, sorrindo.
E eu soube, naquele instante, que apesar da perda de Clara, do medo, da ausência e da saudade, a vida nos havia dado uma nova chance. Uma chance de amar, de confiar e de ser feliz novamente.
Ana segurou minha mão e disse: — Obrigada por voltar, por ser nosso pai e nosso marido.
E eu, olhando para Gabriel e para Ana, senti meu coração transbordar. Pela primeira vez em muito tempo, me senti verdadeiramente em casa, e pronto para enfrentar qualquer tempestade que viesse, desde que estivéssemos juntos.
O sol se pôs no horizonte, pintando as montanhas de Minas com tons de ouro e vermelho. E ali, naquele momento simples, mas cheio de significado, compreendi que recomeços são possíveis, e que o amor, mesmo depois da dor, sempre encontra um caminho.
‼️‼️‼️Nota final para o leitor: Esta história é inteiramente híbrida e ficcional. Qualquer semelhança com pessoas, eventos ou instituições reais é mera coincidência e não deve ser interpretada como fato jornalístico.
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